segunda-feira, maio 05, 2014

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O bairro de Nyhavn, Copenhaga, Dinamarca: um misto de virtude e libertinagem


Não é apenas junto da estátua da Pequena Sereia, símbolo de Copenhaga, que se sente o espírito imaginativo de Hans Christian Andersen. Este persiste também no elegante bairro de Nyhavn, onde o autor de contos infantis viveu entre 1834 e 1875, respectivamente nos números 20, 67 e 18, balançando entre o lado solarengo e o lado sombrio deste canal de 300 metros. A questão é que, nessa altura, ele não era tão elegante assim. Era, por outro lado, uma zona de meretrício em que se concentravam bêbados, prostitutas e, de um modo geral, a população de mais baixo nível da capital dinamarquesa.


Parece uma contradição que, num ambiente tão perverso, a mente de Andersen tenha produzido histórias tão puras como “A Pequena Sereia”, “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”. Mas Nyhavn vive precisamente dessa contradição, tendo evoluído de lugar duvidoso e evitado para um dos mais conhecidos e apreciados da cidade, onde nem todos se podem dar ao luxo de viver, e servido igualmente de residência a importantes artistas e inventores. Cavado entre 1671 e 1673 por ordem do rei Cristiano V da Dinamarca, o canal tinha como objectivo possibilitar a navegação entre o porto e o centro de Copenhaga, sendo, por esse motivo, baptizado “Nyhavn”, que significa Porto Novo. Depressa aquela área se tornou um dos principais centros de comércio marítimo da Escandinávia, com uma enorme afluência de embarcações, que descarregavam as suas mercadorias em Kongens Nytorv, a Praça do Rei.

As coloridas casas da margem norte do canal, construídas de forma muito modesta em madeira, tijolo e gesso, são hoje em dia o mais típico postal de Copenhaga. Mas, nos seus primeiros anos, eram na sua maioria bordéis frequentados por marinheiros depois de vários meses em viagem. Já do outro lado, na viragem do século XVII para o século XVIII, começaram a surgir mansões de grande requinte (tais como Charlottenborg) e outras habitações para os cidadãos mais ricos. Aí estava patente a direcção que Nyhavn viria a tomar: na década de 1970, era considerada uma das zonas residenciais mais sofisticadas de Copenhaga… contendo só algumas lojas de tatuagens. E o seu cais é, desde então, o percurso pedestre predilecto dos habitantes da cidade.

Bares, cafés e restaurantes com clientela de elevado estatuto cobrem agora as margens do canal, acompanhados de barcos de madeira de época que relembram o período áureo de Nyhavn, entre 1780 e 1810. Um dos pontos que mais atrai os viajantes é a âncora de grandes dimensões que foi instalada em Kongens Nytorv, na extremidade do canal. Tendo pertencido ao Fyen, uma fragata do século XIX, ela presta hoje homenagem aos mais de 1700 oficiais da Marinha Dinamarquesa que perderam a vida durante a Segunda Guerra Mundial.

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