domingo, março 09, 2014

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Crónica de viagem enviada por João Sousa Pereira, sobre a viagem que fez com a PLV a Marrocos

À CATA DO SOL…

Crónica da viagem com os Amigos dos Castelos ao Marrocos profundo
Data: de 28 de Dezembro de 2013 a 6 de Janeiro de 2014




« Quando a 6 de Janeiro saí do autocarro em Almada debaixo duma chuvada terrível, lembrei -me de quanto tinha enriquecido nesta última semana…

Regressado em 26 de Dezembro duma semana de Natal nos Alpes Italianos, o que precisava acima de tudo era de calor. A opção por Marrocos ia revelar-se acertada… 

Antes da partida, dizia-me a minha filha:
“- Pai, então vais com amigos?
- Sim, com os Amigos dos Castelos!
- Mas… e não conheces ninguém?
- Nem sei, mas quando regressar, de certeza que conhecerei muita gente e terei novos amigos.
Olha, vou à cata de amigos e de Sol!...”

Voltei enriquecido… e com vontade de recordar, de partilhar e, porque não, até de repetir.

Escrever as memórias que ainda persistem é reviver, é repetir.

Pelo prazer que isso me dá (talvez partilhado com quem me ler), vou tentar encadear as recordações com os itinerários e os roteiros dos pólos turísticos que visitamos.

Tal não é fácil porque não tomei quaisquer apontamentos. 
Primeiro facto curioso: os hotéis deixaram de pôr sobre a mesa, aqueles lápis e caderninhos que tanto jeito davam… - Que pena! A crise tem destas coisas!

Peço então a vossa benevolência para os inevitáveis erros. Será apenas memória,… e Google! Seja o que Deus quiser… e se Deus quiser, “Inch Alla!...”


1º Dia – Com o vento e atrás do Sol, até Tanger…

Um dia sobre rodas… (com um magnífico almoço em Sevilha).

Para muitos uma estafa… para mim um prazer, porque gosto de ver a paisagem correr até mim, passar e recomeçar, deslumbrar-me e deixar marca…… melhor que o cinema!…

… Já vimos no horizonte, aquela floresta de torres eólicas que anuncia a aproximação de Tarifa, meca de surfistas e amantes de kitsurf, de vento e de mar… Em breve estaremos em Africa!

O nosso guia, condutor e director de viagens, Rui Pinto Lopes, amigo e cicerone já doutras andanças, depois dumas recomendações oportunas sobre os costumes marroquinos, avisa que nos irá deixar em Tanger, decerto para organizar outras aventuras. É uma perda considerável, mas ficamos bem entregues à Teresa que nos guiará, ao condutor Sr. Costa, de poucas falas mas “que está sempre onde é preciso” e ao guia marroquino que iremos conhecer.

Faz-se noite e vamos passar o Estreito, onde o Mediterrâneo escorre para o Atlântico e o pobre Hercules suporta umas colunas, frágil equilíbrio dos limites do mundo grego…

Ai! Aquele balançosinho enjoativo!... Enquanto sentados nos sofás  até dava para disfarçar, agora na bicha do passaporte, as tentativas de manter o equilíbrio resultam por vezes em passos de “brake dance” deveras interessantes. Para mim, velho marinheiro, a coisa até foi engraçada…

Jantar e acomodações no Hotel Almohades. Conhecer o meu companheiro de quarto António Gouveia, que se revelaria duma educação e simpatia notáveis, foi uma mais-valia…


2º Dia – Conhecer Tanger e depois,… Ala que se faz tarde, até Fez …

Apresentação do nosso guia, Jarbi, um “Tangerino” de fraca figura, mas de alma grande. Sempre atento e disponível, estudioso das dinastias, sabia o nome daqueles reis todos, e prometia levar-nos em segurança até ao Marrocos profundo, devolvendo-nos sãos e salvos na data prevista:
- “Señores! Nos vamos a traversar las montanhas, los Atlas Médios e Altos, ver las cidades imperiales, lo deserto e los oásis, boa comida e diversiones… tudo como programado… Inch Alá!…”

Começamos por Tânger, aquela cidade africana que mereceu a curiosidade dos nossos primeiros navegadores e a cobiça de reis e príncipes hiperactivos, danados para a porrada.

A Tingis romana (fenícia, cartaginesa, romana, bizantina, árabe), que depois das muralhas e do abandono portugueses, andou de mão em mão, espanhóis, ingleses, o protectorado francês e a gestão internacional rotativa… será devassada agora por esta horda de Lusitanos!

Instalados no autocarro, vamos tomando contacto visual com as altas torres quadradas das mesquitas e o bulício das ruas e das avenidas que, se não se chamam Mohamed VI, provavelmente serão Hassan II ou até Mohamed V. Mas com o seu passado internacional, vemos também a avenida da Holanda, da Inglaterra e até uma Praça de Faro.

Está um sol radioso e um céu azul quase como o nosso céu de Lisboa. Bons sinais para os dias que se seguirão…

Nas voltas pela cidade ficou-me na memória um mercado de rua em que as vendedoras trajavam roupa colorida e uns chapéus exóticos cónicos, com umas tiras de pano branco. Destoavam das caras tapadas e roupa escura das mulheres marroquinas. Não sei bem porquê, mas encontrei semelhanças com as mulheres do Algarve profundo e até das ceifeiras alentejanas…

Avançamos pela Medina com as suas ruas apertadinhas, arcos de tijolo sobre a nossa cabeça, restos da velha muralha portuguesa e uma vista desde as ameias sobre o mar e as costas de Espanha…. Imagino um soldadito português de antanho, olhando o horizonte e curtindo as saudades da sua terra perdida na bruma do oceano…

Vejo um grande paquete branquinho que vem do alto mar e logo depois veremos atracar num molhe, que parece demasiado pequeno. Não há problema, diz o Jarbi, pois está em construção algures o novo porto, TangerMed…

Numa parede um painel de azulejos policromados e inscrições em árabe e francês, recordam o grande Ibn Batuta, viajante e cientista nascido em Tanger (sec. 13) que percorreu e descreveu todo o mundo islâmico desse tempo, com incursões por Africa (Mali. Moçambique, Madagáscar) e Ásia (Pérsia, India e Indochina), bem como o Andaluz magrebino (Málaga, Granada) … Estará aqui sepultado?

Os vendedores de rua começam a apertar o cerco e rapidamente afinam o vocabulário para o português básico… Vamos dar a uma rua infestada de lojas e casas de câmbio e uma praça repleta de cafés, onde tomo o primeiro de muitos chás de hortelã…

… Em tempos idos, uma rica americana enamorou-se de Tanger, onde comprou todo um bairro na Medina e fez dele a sua casa… Espalhou beneficência por todo o Marrocos e iriamos ouvir falar dela muitas mais vezes…

Entramos no autocarro e vamos deixar Tanger pela estrada da costa, em direcção ao cabo Espartel, vigia e porta de entrada do Atlântico. Subimos por uma estrada ladeada de belas e ricas moradias, depois um grande parque florestal que faz lembrar Monsanto pela vegetação mediterrânica… 

Escondido no interior da mata (com evidente vigilância militar), um dos muitos palácios reais, espalhados por todas as cidades que visitamos…

No cabo Espartel, nova meca do comércio turístico, alcandorada numa arriba de calcário, vemos lá longe as últimas costas de Espanha… e o famoso cabo de Trafalgar, frente ao qual se travou a célebre batalha naval, entre a armada napoleónica franco- espanhola e a britânica. O vencedor, Lord Nelson, perdeu a vida na batalha…

Descemos para a costa e vemos à direita o mar. E logo ali quase ao alcance da mão esquerda, uns montes calcários amarelos que me fazem lembrar a serra de S. Luis, na Arrábida. Passamos o aeroporto (onde o amigo Rui Pinto Lopes nos deixou) e os bairros modernos e já estamos na estrada da costa a caminho de Larache, onde vamos almoçar…

Terra plana, alagadiça, de agricultura pobre…, ao longe no horizonte as alturas da montanha do Rif. Alguns montes mais próximos são apenas a continuação da mesma cadeia do Rif… Pelo caminho passamos Asilah, a Arzila que nos deu que fazer nos bancos da escola (Alcácer- Ceguer, Arzila e Tanger…).

Larache (Al Araich) foi capital do protectorado espanhol, durante cerca de 50 anos. Com um porto espaçoso, foi alvo de cobiça para portugueses, espanhóis e franceses. Sempre resistiu e tornou-se até base de piratas temidos. A presença espanhola é bem visível na arquitectura andaluza que se destaca na airosa Praça da Libertação (antes chamada Praça de Espanha)

A nossa fama de portugueses devoradores de pescado presenteou-nos com um almoço sofrível de peixe frito, que para mim, já que falamos de peixe, deixou apenas saudades de uma boa caldeirada…
… E, ala que se faz tarde, eis-nos na estrada a caminho de Fez.

Pelos campos rasos de Alcácer Quibir (Ksar El-Kebir), nada que nos dê esperança de reencontrar el-rei D. Sebastião…

Mas o nosso guia Jarbi fez questão de recordar a batalha em que morreram os 3 reis contendores (e por isso os marroquinos falam da batalha dos 3 reis). O jovem rei Abu Abdallah Mohamed (Mulei Mohamed) pediu ajuda a Portugal para recuperar o trono a seu tio (Abd Al-MaliK ou Mulei Moluco), que por sua vez o tinha obtido belicamente com ajuda dos turcos otomanos. Morreram os três, durante a batalha: o 1º de ferimentos, o 2º de doença e D. Sebastião desapareceu… até hoje!

Portugal perdeu a independência para Espanha. Marrocos conheceu novamente um reino único com Ahmed Al-Mansur que o expandiu, anexando o império do Mali[1] (mas este desfez-se com a sua morte).


Um pouco de história …

Por estradas planas e monótonas, de piso descuidado, embalados pelo ronronar do autocarro, ouvimos o guia Jarbi desenrolar um pouco da história de Marrocos, as suas etnias, as dinastias…  

Os Omeyas, invasores árabes do médio oriente (califado de Damasco) - Sec.  VII e VIII

Os Idrissidas -789 a 985, berberes fundadores de Fez (807)

Entre 920 e 1031, o poder em Marrocos está dividido entre o califado de Córdova (Idrissida) e os Fatimidas de Kairuan (Tunísia)

Em 1031 desintegra-se o califado e resulta um período de anarquia até à invasão dos Almorávidas (1077), berberes vindos dos mosteiros do deserto.

Os Almorávidas – 1077 a 1147, capital em Marraquexe, o império ocupa metade da Ibéria e a costa mediterrânea e atlântica (de Santarém a Trípoli e Tombuctu)

Os Almóadas – 1145 a 1269, consolidam o império e desenvolvem as artes (período áureo de Al Andalus)

Os Merinidas – 1244 a 1492, berberes do Saara, capital em Fez (a conquista portuguesa de Ceuta foi em 1415 e a perda de Granada em 1492) …

De 1492 a 1511 o império está em crise e segue-se um período de anarquia

E depois, os Saadianos – 1511 a 1659, originários do Drâa (sul do Atlas) instalam-se em Fez e Marraquexe. Nesta época dá-se o início e o fim da expansão portuguesa (conquista de Azamor 1513, Alcácer Quibir 1578),

Os Alauitas – 1631 até hoje, capital em Mequinez (Meknés) e Rabat… Os últimos reis: Mohamed V (herói da libertação), Hassan II e Mohamed VI (revolução nos costumes).

- As capitais imperiais: Fez, Marraquexe, Mequinez, Rabat…

- As raízes genéticas: sobre um substrato berbere indígena, mistura-se sangue fenício, árabe, judeu e africano subsaariano…

- Os berberes não gostam de ser designados assim, porque este nome deriva do latim e significa bárbaro. Há uma designação autóctone mas não é usada.

- Os tuaregues ou homens azuis (porque se vestem de azul e a tinta trespassa para a cara com a transpiração) são quase um mito porque são nómadas do deserto e pouco aparecem…

- O Islão instala-se definitivamente em todo o Magrebe no seculo X com o grande Almançor. O grande veiculo de divulgação do Islamismo foram as caravanas de mercadores…

… E assim,
Embalados e contaminados pela sabedoria do Jarbi, chegamos a Fez (Fes) à noitinha.
Instalados e jantados no Hotel Barceló, vemos um trânsito caudaloso fluir pela Avenida Hassan II. 

Apetece experimentar o contacto com esta turba humana. Pertinho, um grande centro comercial…, O meu amigo e companheiro João Carlos lança o desafio… e vamos até lá!

A travessia da avenida põe à prova a nossa audácia e determinação. Não há semáforos, mas temos passadeiras… os peões forçam a passagem, os primeiros automóveis ainda fazem desvios pela frente, mas os seguintes resignam-se a travar, não sem uma buzinadela de frustração. Logo que o fluxo peónico se reduz, os automóveis atacam e repete-se a cena…

No centro comercial, bem delineado e fornecido, a euforia consumista é igual a qualquer outro… No regresso ao hotel já dominamos a perícia do jogo peão- automóvel e tudo nos parece natural… - Início de aclimatação.


3º Dia – Aventura no labirinto da Medina de Fez…

O dia amanheceu frio…. Embora soalheiro.

O autocarro levou-nos a um morro com um castelo (?)… O objectivo é uma vista panorâmica da cidade: As máquinas disparam, as imagens ficam gravadas… Jarbi esforça-se por nos apontar os lugares relevantes. Isto, no meio duma algaraviada de várias línguas porque esta introdução à cidade faz parte de todas os roteiros.

Procurando uma solução que integre a protecção do vento frio com a parede do castelo, umas fotos giras e a conversa do Jarbi, fiquei com uma ideia nebulosa da arquitectura desta cidade… Mas ficou na memória, em baixo a amálgama urbana da cidade velha ou Medina, rodeada de muralhas. Na encosta em frente, alguns verdes salpicos de arvoredo marcam lugares notáveis: serão palácios, jardins, hotéis?

A vista descansa ali ao lado no verde duma encosta surpreendentemente livre da especulação imobiliária… E ao longe as montanhas em cinzento claro. A cidade plana e moderna onde dormimos desapareceu e não a descubro…

Resumo histórico:

A cidade de Fez foi fundada em 789 pelos Idrissidas. A cidade velha, Fez el Bali tem um perfil árabe muito acentuado porque recebeu logo em 817 e 824 duas levas de imigração de famílias árabes expulsas do Al Andaluz (Córdova) e da Tunísia (Al Kairuan), tendo formado duas medinas separadas pelo rio e posteriormente por muralhas.

No sec X, a cidade é disputada pelos Almorávidas de Córdova e pelos Fatimidas da Tunísia e submersa em guerras constantes. Vence o Almorávida (1070) que destrói as muralhas e faz uma nova cerca unindo as duas partes. A capital muda para Marraquexe, mas Fez permanece como capital religiosa e do saber (Mesquita e Universidade).

Em 1250 volta a ser capital com a dinastia Merinida e novas muralhas e palácios são construídos. Em 1438 nasce o bairro Judeu (a Mellah) com judeus da Medina, judeus berberes do Atlas e judeus emigrados do Al Andaluz. Em 1465 uma perseguição extermina todos os judeus e segue-se um período de poder disperso secular (os Xarifados).

No sec VI a dinastia Watlasida toma a cidade com auxílio dos turcos que assumem o poder em 1579, mas a cidade volta a ser independente com os Saadianos, sob Ahmed al Mansur, após Alcácer Kibir. Volta a ser capital em 1799 até 1912 (passa para Rabat). A cidade foi sempre um grande centro comercial e financeiro, principalmente devido às caravanas que atravessavam o Atlas vindas de Tombuctu (rota do ouro).

À descoberta da Medina:

A atracção desta cidade é a visita a pé da velha Medina e é para aí que vamos. O autocarro deixa-nos primeiro às portas do palácio real: Apreciamos as grandes portas do palácio trabalhadas minuciosamente em cobre, as paredes em azulejo policromado… Mas, francamente, eu já tinha feito esta visita há anos e a impressão é a mesma: A visita deve ser obrigatória, para os guias tecerem sempre as mesmas considerações, mas na memória fica apenas uma parede com portas que nunca se abrem… sabe a pouco!

Do autocarro olhamos as fachadas da rua do bairro judeu, … O guia chama-nos a atenção para a tipologia: sempre a loja em baixo e a habitação por cima. São casas em banda com a fachada em madeira de cedro trabalhada, um certo luxo mas não impressionante.

É agora que vai começar a viagem mágica pelo labirinto duma cidade que funciona autonomamente, com quase todos os serviços, mas onde a rua mais larga não terá mais de 1.5m e o meio de transporte são os pés humanos ou de alimárias…

Recomendações de atenção, aponta-se o nº de telefone do guia: “atenção: aqui quem se perde, nunca mais se orienta…”. Mas a organização está bem montada com os guias em pontos estratégicos, um senhor engraçado que estamos sempre a ver em todo o lado e depois descobrimos que está contratado para não deixar ninguém para trás.

Entramos por um magnífico portal (Bab qualquer coisa…) e logo descemos por uma rua direita, cheia de gente e comércio de tudo: uma bugiganga, uma roupa, uma ninharia…, mas se pretender uma jóia caríssima, eles vão buscar…

A visita inclui a Madraça ou Medersa (escola corânica, onde as crianças aprendem a recitar o Corão e decerto também o trivial), a Mesquita e Universidade, (de que só vimos as portas), onde se preparavam os funcionários duma administração imperial…

Mas a verdadeira emoção está no fluir da multidão nas ruas, o colorido, as várias línguas, os apertos e encontrões… A sensação da formiga dentro do formigueiro caótico e disciplinado… Há gente que vive aqui, que come e dorme nos seus pequenos tugúrios (ou palácios que também os há…) e outros trabalham para assegurar essa vida…

De repente o brado: … Balak, balak! (cuidado, atenção) … e todos se resguardam deixando espaço para passar um homem submerso pela sua carga, um burrito carregado de sacos, uma mula obediente com materiais de construção…

Descemos por uma rua de comércio…, Sinais de alarme voam de boca em boca: atenção virar á direita!... Lá está o homenzinho engraçado… não deixa que ninguém se engane, já nos conhece a todos… E subimos por uma vereda apertada… com becos ainda mais apertados… arcos de tijolo e estuque tapam o céu e a luz, mulheres e crianças encostam-se à parede… Bonjour, bonjour! … Não estão a vender nada, moram aqui!... Uma Lalla (senhora) de cara tapada e olhos brilhantes empurra um carrinho de bebé… numa esquina, uma feroz discussão entre homem e mulher: Ela está recolhida em casa, mas berra que se farta, ele na rua replica e olha os transeuntes, esperando alguma consolação…

E estamos de novo na rua da confusão… Ouvimos ao longe um ritmo incoerente de batidas sincopadas… Que será? Uma dança folclórica alucinada? Um ritual satânico? … E damos com um largo onde os latoeiros trabalham na rua, martelando o cobre e outros metais com frenesim… um ritmo caótico de tons e sons díspares, mas que estranhamente aquece o coração e dá vontade de participar…

… E estamos no largo onde todos os turistas se concentram… tempo para fazer compras, há bazares, uma rua coberta, com lojas de tudo, um museu… e o souk também é já ali…
Mas, o estômago lembra a urgência do almoço e lá vamos a pé por uma zona mais desafogada onde estacionam os meios de transporte mais exóticos (burros com fartura, motorizadas, triciclos, carroças, camionetas, carrinhas de passageiros, táxis…). Está-se mesmo a ver: A entrada de mercadorias do formigueiro faz-se por aqui!

O restaurante é um edifício peculiar: nada no exterior faz pensar no luxo do interior: um salão enorme de grande pé direito e galerias laterais a meia altura. Podia até ter sido uma mesquita, mas provavelmente foi construído mesmo para este efeito… Mas o que impressiona é o revestimento das paredes: Em baixo o estuque, a meio o azulejo de vidrinhos coloridos, em cima o cedro… Mas tudo trabalhado em filigrana de desenhos geométricos: Fotograva-se, mas nem com o zoom mais forte poderemos perceber o intricado do relevo…

Voltamos ao labirinto: Passamos agora a rua do mercado (Souk) dos comestíveis: fruta, hortaliça, carnes… Da memória não me sai uma monstruosa cabeça de camelo com aqueles longos beiços donde saem umas hortaliças (ultimo desejo do condenado?) e que me fita com ar feroz… Até na fotografia assusta!

… E subimos à tradicional loja das peles no bairro dos Curtidores:

De raminho de hortelã na mão, subimos as escadas intermináveis até ao terraço de onde observamos em baixo (ao ar livre) os tanques redondos onde homens seminus metidos na água colorida mexem e remexem nas peles a tingir… Junto à parede, vejo o entreposto comercial onde estão estacionados os burricos que iremos encontrar nas ruas, ao grito de Balak

A hortelã é para meter no nariz para enganar o cheiro nauseabundo do local: dizem que é devido ao excremento de pombo que é usado para curtir as peles, mas o cheiro é mesmo das peles em decomposição…

Por acaso e devido decerto a condições atmosféricas favoráveis, o cheiro não tem semelhança com o que senti numa visita anterior. E ainda bem porque depois dum lauto almoço ainda em processo de digestão, este fino aroma só poderia conduzir a desagradáveis surpresas.

Ouvem-se explicações em várias línguas (alguma dificuldade em encontrar um falante de português) … Enaltecem-se as virtudes dos processos de cura utilizados, a qualidade superior das peles e das malas, cintos, casacos, até sofás… Mas parece-me que o negócio foi fraco, nem deu para a hortelã!

Já no autocarro, passamos por um complexo que o Jarbi identifica como o Hospital Veterinário: a tal senhora americana, condoída da triste vida e morte dos burritos da Medina, mandou construi-lo com regras de gratuitidade para todos os animais pobres, pagando os ricos uma quantia em função dos seus rendimentos… Ele diz que ainda hoje é assim e só podemos solidarizar-nos com isso…

Na memória conservo uma avenida com muralhas dum lado e outro: à direita as muralhas escondem um imenso cemitério; à esquerda são muralhas mais nobres com bastiões e portas imponentes. Não sei identificar o local e a memória faz partidas porque a muralha deve ser da Medina … Só sei que era bonito!

Regressamos ao mesmo hotel para jantar e dormir… Amanhã é levantar cedo que vão ser muitos quilómetros de estrada.

Já deitado fico a pensar na azáfama do dia… Ninguém se lembrou do pobre Infante D. Fernando que por ali espiou a culpa de outros… Medito na parte técnica, que ninguém realça: Como garantir a eficácia e segurança da rede eléctrica… e a água… e os esgotos?… Naquele vale corre um rio… Nunca o vimos porque deve estar canalizado… E quem o fez?  … Só enaltecemos os que mandaram fazer palácios, muralhas, mesquitas, os que usaram e abusaram… as pobres formigas nunca contam para a história!...


4º Dia – Estrada fora…
Deixamos Fez com uma temperatura baixa e farrapos de nuvens num céu deslavado… Temos pela frente 410 km até Erfoud no deserto!

Agora o caminho é para Ifrane, a que chamam a “Suíça de Marrocos” porque está a 1700m, clima seco e ameno, e … desportos de neve no inverno.

A estrada corre monótona… Durante alguns quilómetros, vemos uma planície muito habitada e explorada agricolamente… casas muito pobres, muitos burricos, motorizadas, triciclos, os homens de hábito castanho até aos pés com aquele capuz em bico… as mulheres de negro e cara tapada… Mas estamos a subir gradualmente: São cerca de 75 km até Ifrane e o desnível é de 1000 metros!

Cerca da cidade de Imouzzer (1200m), começamos a pisar as encostas do Médio Atlas. Terras pobres de xisto, alguns rebanhos de ovelhas, tendas de berberes… Por vezes um regato alegra a paisagem de verde e as hortas revelam a presença humana. Ao nosso lado esquerdo uma barreira de montes altos com florestas de pinheiros e cedros…
E de repente surge a cidade de Ifrane (1700 m)!
Parece outro país: As casas com telhados muito inclinados, as fachadas tipicamente europeias… Saímos para desentorpecer as pernas, beber um chazinho de hortelã, trocar dinheiro, tirar fotos… Um jardim debruado a neve, cedros seculares e… o famoso leão do Atlas, um enorme penedo esculpido, que recorda o mítico animal extinto.

Ifrane desenvolveu-se durante o protectorado francês (1928) como estância de férias dos colonos europeus, devido ao seu clima suave. Dada a pobreza agrícola dos seus terrenos, não atraiu uma população indígena, mantendo-se como cidade turística, desportos de inverno e férias de lazer no verão… O rei tem também por aqui um palácio!

À saída de Ifrane, a paisagem é paradisíaca: Um regato límpido corre ao nosso lado, os cedros gigantes espalham-se pelas colinas, a relva macia atrai-nos, a neve concentra-se nas encostas mais sombrias… Um Sol radioso enaltece as cores e aquece os corações…
E durante umas dezenas de quilómetros, percorremos um vale ameno, bordejado de cedros pingando flocos de neve, e campos rasos onde a neve brilha e os turistas escorregam tropegamente brincando como crianças…

É uma zona de escassos recursos agrícolas e despovoada. De tempos a tempos, uma cabana arruinada de adobe coberta de plásticos e um pequeno rebanho de cabras, burros e camelos… Jarbi explica que não se trata de habitantes mas de pastores em transumância…

A paisagem está a mudar… Já não vemos cedros a bordejar a estrada que gradualmente vai descendo (1400 m).

Um cruzamento: Para a direita, Azrou, uma cidade do Médio Atlas onde dizem que deambulam macacos selvagens nos montes vizinhos… Para a esquerda: estrada N13, Errachidia, o nosso destino. Faltam ainda 330 km para Erfoud! (*)

(*) Aqui cruzamos a famosa “Estrada Turística dos Cedros”, um circuito panorâmico pelos vales e colinas do Atlas, onde além dos citados Cedros, é possível encontrar os famosos macacos e ainda um lago de montanha (Lago Afnourir)

Rumamos a Sul e contornamos os últimos relevos do Médio Atlas…

Voltamos a subir até perto dos 2000m mas por entre montes (Jbel) áridos cor de barro, de arribas rochosas. A temperatura tem-se mantido acima dos 15ºC e o Sol brilha num céu cada vez mais límpido e azul…

E de repente, quando descemos por um vale cavado por torrentes de cheia, ao fazer uma curva, uma alta barreira longínqua surge aos nossos olhos, negra e ameaçadora, mas coberta por um suave manto de neve brilhando ao Sol. Está longe,… uma larga planície amarela separa-nos…

Interrogo-me: como iremos transpor esta muralha?… Vislumbra-se uma abertura entre dois maciços imponentes (Jbel Ayachi – 3737m e Jbel Masher- 3277m) e já imagino a nossa subida por vales e precipícios assustadores… Mas entretanto caminhamos por uma planície desolada e monótona, pontilhada aqui e ali por altos montes em tom ocre e de formas estranhas… Surgem algumas aldeias onde a água escorrida dos montes permite uma escassa agricultura familiar… Os ribeiros distinguem-se à distância pelo enfiamento de árvores esguias, colorindo a monotonia da planície…

Mas quem fez esta estrada (que aliás seguiu as pisadas ancestrais das caravanas), sabiamente procurou outros caminhos e inverteu o rumo para oriente, para onde a montanha vai descaindo em alturas mais razoáveis…

Por longas rectas, olhando a areia que nos rodeia e as altas montanhas que nos observam, a maioria vai dormitando e enganando o estomago que reclama abastecimento…

Mas, como adivinhando a causa do silêncio que se vai impondo, Jarbi renasce com mais explicações históricas e geográficas e anuncia o almoço para breve.
Como, neste deserto? Pensamos nós!

E milagrosamente o autocarro trava e sai da estrada… Perante nós apresenta-se um grandioso edifício…, uma escadaria dirige-nos o olhar para a fachada monumental, na cor ocre do deserto, com uma “barbacã” de madeira saliente… Fotografei: chama-se Hotel Taddart!

Aqui almoçamos numa sala imensa, um buffet variado e bem apaladado… Bom sinal para os dias do Marrocos profundo que se aproximam. Mas decerto não me enganarei na minha convicção de que quanto mais nos afastarmos dos sítios chamados civilizados, mais a dieta mediterrânea tradicional virá à superfície… E além do mais estamos na rota das caravanas[2] e da hospitalidade…

Bem, considerações gastronómicas à parte, gostei do ambiente cosmopolita… Continuamente paravam autocarros debitando turistas falando as mais variadas línguas… ao nosso lado fala-se japonês (não será chinês?), inglês, espanhol, italiano, etc… Entusiasmei-me e comecei a comprar, um mapa, gravuras de paisagens, fósseis… as senhoras então, maravilhavam-se com os panos, os cremes, enfim, aquelas coisas irresistíveis…

De novo na estrada, a paisagem está cada vez mais lunar… Eu gosto imenso deste género ciclópico, em que a natureza se agiganta e nos faz sentir pequeninos perante as forças que dominaram esta orografia… as formas impossíveis que a erosão modelou nos montes que se elevam da planície… no meio da areia agigantam-se morros de formas caprichosas, alguns fazem lembrar as esfinges guardando túmulos escondidos…

Passamos Midelt, uma cidade de arquitectura rosa típica e torres de adobe, fazendo já lembrar o Mali,… uma Kasba em ruinas lembra-nos a rota das caravanas… Uma ponte sobre um ribeiro seco correndo para nascente… Curioso, aqui todos os cursos de água apontam para oriente, onde o horizonte denuncia o deserto de areia, com picos fantasmagóricos e aquela planura infinita… (fui ver ao mapa, realmente todas estas encostas alimentam um rio importante que vai desaguar no Mediterrâneo junto à fronteira com a Argélia).

Chegamos aos montes!… Subimos por uma estrada sinuosa, encostas de arenito amarelo, erodido, fendilhado, ameaçando desmoronar-se a cada momento. Muros de suporte desagregando-se… O que vale é que deve chover muito pouco por aqui!...

E vamos engolindo quilómetros sem subir muito mas sempre rodeados de montes, de encostas abruptas… Entramos num planalto árido e imenso, sulcado de nervuras rochosas que vêm ao nosso encontro, abrindo pequenos rasgos par nos deixar passar… À memória vêm as imagens do Lisboa-Dacar que passava por aqui…

Até que no horizonte surge uma alta barreira montanhosa que nos tapa a saída em qualquer direcção… Como ultrapassá-la? Passamos a navegar para poente junto à barreira como procurando uma abertura

E ela surge sem aviso… Cruzamos um rio caudaloso, viramos à esquerda e entramos num vale que desce vertiginosamente (Gargantas do Ziz)… O leito é agreste denunciando grandes cheias periódicas… Depois alarga e corre calmamente rodeado de aldeias e palmares, mas sempre cercado de montes a pique (planalto do Rich).

Paramos para fotografias num miradouro… Um tuaregue, de tez escura onde brilham dois olhos negros faiscantes, turbante e túnica integral dum azul forte e brilhante… Vende coisas interessantes e faz os encantos das senhoras, encantadas pelas bugigangas, … ou quiçá pelos olhos misteriosos. Após um épico regateio, a colega Fernanda conclui uma transacção proveitosa, merecendo o honroso epíteto de “ Negociadora Berbere” e algumas fotografias com o homem do deserto…

O rio Ziz corre agora num canhão sinuoso por onde a estrada se precipita também… Após o Túnel do Legionário, paramos numa curva perante um cenário deslumbrante… À nossa esquerda a escarpa a pique, em baixo o rio espreguiça-se num leito de areia, pedras e arvores raquíticas… Para Sul uma abertura na montanha mostra uma cadeia de montes em cores do vermelho ao amarelo, conforme as sombras dum Sol intenso, que ora se mostra, ora se esconde num crepúsculo prematuro…

Atrás de nós param os autocarros; os italianos, os japoneses… e do nada surgem jovens berberes oferecendo a sua curiosa arte: Com uma única tira de folha de palmeira entrelaçada, fazem a figura inequívoca dum camelo, com patas, cauda e até a arreata… Sorridentes, ainda vêm a trabalhar a folha húmida… Não podemos deixar de premiar com moedas esta ingénua mas simpática forma de nos cumprimentar…

E de repente a montanha abre-se para nos deixar passar e mais o rio, que cansado se espraia numa barragem quase vazia … Agora o horizonte é aberto, a montanha ficou para trás, a humidade do rio nota-se na vegetação, … começam os palmares daquelas doces tâmaras que eu tanto aprecio.

E chegamos a Errachidia, a linda porta do deserto, aquela que se chamou Ksar es-Souk e foi berço dos Alauitas (dinastia reinante) que a distinguem com especial carinho (My Rachidia).

Aquela cidade onde há uns anitos atrás (1975) se iniciou a “marcha verde”- Uma multidão de marroquinos, respondendo ao apelo do rei (Hassan II), marchou a caminho do Saara Ocidental, reclamando a sua soberania, liberada pelos espanhóis… É um assunto ainda não resolvido (frente Polisário).

Eu gostei muito desta cidade (que apenas atravessamos). Uma sensação de espaço, ar livre… um céu azul e temperatura agradável… A arquitectura ocre, aquelas torres prismáticas (?) típicas de todo o Saara (Tombuctu no Mali – as caravanas…). Uma avenida larga e bordejada de árvores viçosas e casas baixas e airosas… O Jarbi esclareceu-me que eram escolas e quartéis, … nunca tinha visto quartéis tão bonitos, de cor-de-rosa! Mas também porquê tantos quartéis?

Passamos agora a navegar num mar de palmeiras… O Oued (rio) Ziz, que em Errachidia parecia seco, vai recebendo nascentes e já leva muita água… vemos sempre à nossa direita a mancha verde do seu leito arborizado, enquanto à esquerda temos a muralha amarela das arribas do planalto (desnível de 200 a 300m –Errachidia está a 1000m e Erfoud a 800).

E assim chegamos já noite feita ao Hotel Kasbah Chergui (*), nas proximidades de Erfoud. Uma kasba (embora me pareça feita de novo para o efeito) com uma entrada monumental e por trás uma série de edifícios, criando um largo pátio ajardinado.

(*) Erg Chergui ou Cherbbi – é uma famosa duna (erg) de areia próximo de Merzouga, 60 km a sul de Erfoud. Aqui termina o Ziz e começa o deserto a sério…Por aqui passou o Lisboa Dacar… Por aqui desapareciam as caravanas a caminho do Sul… Caramba: São mais de 3000 km de areia e pedras até Tombuctu!

A noite da Passagem do ano…
O nosso quarto era num edifício em U, com a abertura do U virada para o largo pátio (parece-me que eram todos assim…). Na travessia do pátio já sentimos a picada do frio seco e cortante (Ai! as noites frias do deserto!) … O António meteu-se logo na cama, adivinhando borrasca…

Pelo sim, pelo não, tentei o ar condicionado, com resultados frustrantes em termos de ruido e satisfação… Veio o mecânico, um berbere engraçado, pequenino, meio careca, com um fato-macaco azul claro que mais parecia uma jilaba adaptada. Explicou os comandos e fiquei na mesma…
- “Nous ne voulons pas bruit… Stop! -  Disse eu
- Je comprends… Arrêt total! – … Respondeu ele
- Oui, mais il fait froid…
- Je suggére quelques couvertures…
- Oui, parfaitemant!...
E afinal os cobertores que imediatamente foram trazidos, não se justificavam, porque embora a decoração de pedra e telha vã induzisse uma sensação de frio, o isolamento era eficaz e não houve frio nenhum…

Aliás a decoração era muito gira: paredes de pedra avermelhada com uns arcos e pilares no meio do quarto, tecto de travessas de madeira à vista, com um entrançado de canas… os candeeiros de lata e vidrinhos. Na mesa-de-cabeceira umas pedras brancas leitosas emitiam uma luz amarela quando se acendia a lâmpada que estava lá dentro… Era giro mas…nessa noite não haveriam as leituras do costume!... Também nem era previsível, porque estaríamos cansados da passagem para o novo ano…

Quando desci para reclamar do ar condicionado, quase tropecei num empregado prostrado na sua toalha, virado para Meca… Com todo o respeito, contornei-o e fiquei a pensar: Mas o Jarbi tinha dito que as orações obrigatórias eram só de dia? Portanto estas eram orações especiais, decerto pedidos de favores para o novo ano que se aproximava… (Esta submissão rastejante aos dignitários do profeta, que estarão algures lá para Meca, sempre me impressionou… negativamente)

Descemos para o anunciado Jantar Especial. As senhoras esmeraram nas suas toiletes e vestidos … os cavalheiros deram um jeitinho no cabelo, puseram uma camisa nova e o seu melhor sorriso… Já se ouviam tambores e no pátio deambulavam sombras à luz dos archotes…

Muita correria no acesso ao bem fornecido buffet… Alguns mais afoitos já colocavam na cabeça os adereços fornecidos para fantasiar… e sopravam os apitos de cana rachada… A Margarida experimentava uma mascarilha e ficava uma gatinha simpática… depois uns bigodes e ficava um pirata das Caraíbas… A Fernanda estava linda e ruborizava com os piropos do António… O António descobriu o seu alter-ego: de bigode retorcido, apito a fazer de cachimbo, um certo ar senhorial, era tal e qual o Senhor D. Duarte, herdeiro do trono de Portugal…

E eis que pela sala fora irrompe uma chinfrineira… Entram tambores em ritmo diabólico, címbalos penetrantes e trombetas estridentes, sopradas por uns negros altíssimos, de albornoz amarelo e estranhos barretes… dançarinos de branco e vermelho, cantando uma melopeia e dando grandes saltos alucinados…

Ratatatáá… Tim, tim, tchim … Béééé… TamTam, Ramtamtam… Bééé,Bééé… Rataplan!…

O ritmo entra no sangue!... Os dançarinos chamam-nos para o pagode… Por cima das nossas cabeças, as trombetas de comprimento descomunal debitam decibéis roucos de bestas do inferno… Impossível resistir!...

Misturam-se as gentes de várias línguas… Todos pulamos em uníssono gritando os sons que não entendemos… Mas radiantes de felicidade, esquecemos todo o 2013 para que o 2014 nos encontre limpos e puros como crianças…

Já o champanhe está a ser servido, todos se abastecem de uvas secas e somos convidados a assistir à entrada do novo ano no jardim junto à piscina, com fogueiras e fogo-de-artifício lançado dos terraços a toda a volta…

… E acabou!...

Nesta noite, embalado pelas recordações recentes e as leituras antigas, decerto sonhei com o souk de Tombuctu(*), , as caravanas , desertos e oásis, recepção na kasba e talvez até odaliscas e outros prazeres… 

(*)Tombuctu – Esta mítica cidade no Mali, até ao século passado proibida a europeus e agora alvo de terrorismo Jihadista, foi visitada e descrita por Ibn Batuta. Era um polo de ensino do islamismo e um mercado das riquezas da Africa Tropical, onde os mercadores trocavam tecidos, vidros e cerâmica por sal, ébano, marfim, ouro e até escravos. Situada nas margens do rio Níger, que desiste de correr para o deserto e inverte para sul, é o ponto de concentração e início das caravanas com destino aos países mediterrânicos: O Egipto e Líbia (por Gao, Agadez na Nigéria e Cartum), Tunísia e Argélia (por Tamanrasset, Gadamés,Tripoli ) e Marrocos (Marraquexe e Fez)


5º Dia – A estrada das mil Kasbah…

Saímos manhã cedinho, rumo a Sul até Erfoud, onde viramos para oeste, em direcção a Ouarzazate. Abandonamos o vale do Ziz, que continuará ainda muitos quilómetros em zona inundável, perdendo-se nas areias do deserto.

Mas entramos no vale doutro rio seu afluente, alimentado também pelas vertentes do Alto Atlas, que nunca deixamos de ver à nossa direita. Continuamos rodeados de palmeiras e tamareiras, com grande densidade. Chamam-lhe o maior oásis do mundo!...

Em Tinejdad encontramos a estrada que vem de Errachidia… Percorremos o Vale das Mil Kasbah, cheio de velhos Ksar arruinados… A paisagem é monótona e árida, Ao nosso lado esquerdo, começam a surgir os relevos agrestes do Anti-Atlas, rocha negra que parece basalto…

Ao lado da estrada umas estranhas construções que se repetem em quadrícula, chamam a atenção. O nosso guia Jarbi esclarece:

- “São poços! Um sistema de irrigação dos mais antigos do mundo. No solo argiloso, a água fica retida nesses poços, todos interligados e que constituem como que um depósito…
- Mas não se vêem culturas…
- Sim! O sistema foi abandonado há centenas de anos!”

Numa planície pedregosa e nua pastam rebanhos de camelos e burros… Cruzamos aldeias de ar triste e descuidado. Tudo se passa na rua, os homens falando ou negociando, as crianças correndo seminuas, as motorizadas roncando fumarentas, os burros zurrando e espojando-se na poeira, e… as mulheres, espectros escuros de véu e vestes negras, onde só os olhos espreitando denunciam a sua natureza humana… e curiosa!

Nas encostas alcantiladas dos montes vêem-se grandes escritos em grafia árabe… Julguei que eram versículos do Corão mas o Jarbi elucidou-me:
- “Não! São frases do Governo de incentivo ao trabalho do povo… E são feitas com pedras caiadas de branco!”

Não percebi muito bem, mas fez-me lembrar o Deus, Pátria, Família do Salazar.

Avançamos agora em direcção à muralha amarela do Atlas, que sempre nos tem acompanhado… Chegamos à cidade de Tinghir (1340m), no vale do rio Todra, que alimenta um verdejante Oásis …

Paramos num miradouro sobre o vale:

Lindo!...

A água inunda prados verdejantes, as tamareiras crescem viçosas, ouvem-se burros zurrar… Para lá das tamareiras, as ruinas amarelas duma cidade de adobe abandonada!

Seria ainda mais perfeito sem a inundação de vendedores que nos desconcentram das fotografias… Mas coitados, até são simpáticos e têm coisas bem bonitas…

Um pequeno camelo está ali de pé com uma pata amarrada a uma pedra, mas chora insistentemente voltado para o vale, sem ligar nenhuma aos turistas que, condoídos, até lhe colocaram uma pera no chão ao alcance da boca… De certeza chora pela mãe que deve estar algures lá pelo oásis…

Acabou o tempo… Entramos no autocarro, são horas de almoço, mas não vamos para a cidade. Em vez disso, investimos pelas arribas de arenito, damos umas curvas apertadas e entramos num vale profundo e estreito…

São as Gargantas do Todra, … parece que iremos almoçar por ali.

O autocarro deixa-nos e vamos todos a pé pelo Canion[3] (*), com o rio Todra correndo ao nosso lado e olhando receosos as escarpas a pique de rocha nua, amarela de arenito, corroída pelas águas ao longo de séculos de torrentes bruscas e violentas. O vento sopra pelo canal sinuoso onde o sol não entra… Sinto arrepios de frio, mas há quem trema olhando as pedras em desequilíbrio lá no alto e temendo qualquer inundação repentina…

Do outro lado do caminho está o restaurante escavado na arriba. Passando uma ponte artesanal, atacamos o almoço, que apesar do apetite, não obteve aprovação geral… e não primou pela abundância.

A caminho de Ouarzazate…

Daqui até Ouarzazate são 160 km pelo planalto (a 1500m) tendo à direita sempre a barreira amarelo ocre do Alto Atlas (com relevo impressionante e fotogénico, >3000m) e do lado esquerdo bem perto de nós as escarpas negras, nuas e ásperas do Anti Atlas, que aqui atinge altitudes de 2500m.

Das alturas do Atlas (3000 a 4000m) descem rios caudalosos, formando desfiladeiros famosos e, quando encontram o planalto, oásis de palmeiras. Assim passamos Boumalne (Gargantas do Dadés) e Kelah M’Gouna (Vale das Rosas). Ao nosso lado o vale do rio Dadés, que acompanhamos até Ouarzazate, dá o toque de verde, amenizando uma paisagem agreste e seca de tons quentes (no verão verificam-se aqui temperaturas acima dos 40ºC).

No autocarro reina uma “calma alentejana”… Talvez o repouso post-brandial,… talvez a contemplação da beleza natural que nos rodeia… O que nos vale para alegrar o ambiente são as manifestações jocosas e exuberantes da “Teresinha”… uma mulher do Norte que sabe imitar tão bem a forma característica do falar do Porto…

Parece-me boa altura de falar do grupo do Norte que nos acompanha…Sobrantes duma excursão da Pinto Lopes que não teve candidatos suficientes e ajudou a compor a nossa. Revelaram-se bons companheiros e merecem uma menção honrosa:

- O nosso decano, Serafim, de 90 anos rijos e bem empregados… fotógrafo infatigável, sempre pronto a participar em todos os passeios a pé… De semblante castiço, uma boina basca (que acabou deixando, sabe-se lá onde) inclinada sobre a orelha, à matador!…

-A sua companheira, jovial e chocarreira, sempre alegre e bem-disposta,… que tomava conta do Serafim e dos seus esquecimentos…

- Uma jovem simpática com um curriculum incomum… agora estava fazendo serviço de tradução no Parlamento Europeu, mas antes tinha feito uma comissão de serviço numa embaixada, já não sei bem se na Etiópia, se no Irão…

- E a nossa inesquecível Teresa… Uma força da natureza, em alegria e jovialidade… As suas manifestações calorosas sobre qualquer assunto ou acontecimento, não esquecem:
- “Oh meu amor… Meu Serafim Saudade, que seria de mim sem ti?
- “Anda cá minha querida! Por onde andaste tu, que não te tinha visto até hoje…
- “Oh meu morcõui! Meu chu-chu, minha flor… Então não se tá mesmo a ver…
- “Ah meu lindo! És tão inteligente… Pareces mesmo o Papa do Porto!… Penso eu de que!... (esta era para o Jarbi, que não percebeu)
…”

Paramos numa estação de serviço para desentorpecer as pernas, tomar um café ou um chá, e satisfazer as necessidades básicas… Os portugueses pedem chá de hortelã, mas sem açúcar! E o empregado ri, ri e torna a rir, como se não entendesse. Mas eu bem os compreendo… para mim o melhor do chá é mesmo o açúcar!...

No estabelecimento vai uma grande azáfama, não só de naturais como de turistas… Há uma caixa de música, onde tocam modas europeias com alguns anitos. De repente sai uma música ritmada, não me lembro mas até parecia um vira minhoto… E em menos dum sopro temos a Teresinha agarrada a um empregado de mesa, dançando arrebatadamente, rodopiando como velhos conhecidos…

Espectáculo! Inesquecível...

E onde é que ela foi desencantar aquela roupa de minhota? … A camisa branca rendada era a sua marca habitual, mas aquele lenço colorido na cabeça? Ora, estavam a vender lá fora… Afinal, as mulheres marroquinas não vestem só aquelas roupas escuras e lenços pretos a tapar a boca. Na tradição há até muito colorido… Como é que a religião pode abafar a alma dum povo?

E assim divertidos chegamos a Ouarzazate[4] já de noite… Jantamos muito bem (o pão que é bom em todo o Marrocos, ali era perfeito…). O Hotel Ibis, sendo de 3 estrelas, até nem me desagradou… E ainda fomos dar uma voltinha, já que a noite estava amena e … o António queria comprar uma camisa!
Por uma avenida solitária e com um mapa fornecido na recepção, lá fomos descobrir um largo onde ainda havia artesanato exposto na rua e lojas abertas…

O jovem vendedor, magnificamente vestido com um turbante branco e uma jilaba de estilo (acho que era verde ou azul com dourados) foi muito elogiado pela Margarida, que pretendia roupa similar… mas o preço era de luxo e não houve acordo. O António (como César) chegou, viu e… não comprou a camisa!...


6º Dia – Paxás, Casbás e … A travessia do Alto Atlas…

O dia rompeu luminoso… O céu azul límpido e um sol radioso faziam realçar as cores das casas no tom rosa típico… Ainda tentei vislumbrar a grande albufeira que o meu mapa referia, mas nada… No entanto a avenida terminava num vale verde que devia ser o leito do rio. Mas logo me esqueci, ofuscado pela imagem da magnífica Kasba, de paredes altas e nuas encimadas por torres irregulares, que tapava o horizonte.

Era a kasbah de Taourirt, que iriamos visitar: Entramos por um túnel aberto na muralha e fomos recebidos pelo nosso guia local: um marroquino típico, magrito, de rugas bem pronunciadas, com um riso malandreco mostrando uma boca de dentes ralos e enegrecidos… vestia uma túnica ligeira e acusava o frio da manhã encolhendo os ombros e estremecendo ruidosamente.

Aqui vai a tradução do seu portunhol colorido:

- “ Amigos portugueses: Isto aqui era a residência do Paxá de Glaoui. Era um mercador muito rico e vivia … como um Paxá!... Era comer, beber e brincar com as meninas…
Tinha as 4 mulheres que o Profeta recomenda e mais uma carrada de concubinas,… tantas que ele nem podia ser simpático para todas.
E isto era um grande sarilho!... Porque as mulheres são muito ciumentas e difíceis de aturar… Eu só tenho uma e vejam o que me aconteceu ao cabelo!...
Ele vivia num desassossego porque não queria compartilhar com ninguém tanta felicidade… e para não haver tentações ia construindo muros para as esconder… Então resultou daí este palácio fortaleza que irão ver…”

E lá fomos…

Realmente o palácio era mais bonito por fora que por dentro. Após um largo pátio, onde os visitantes aguardavam a honra de ser recebidos, entramos para umas pequenas acomodações (secretarias, salas de despacho?). Cuidado com as cabeças que as portas são baixinhas e apertadas (os gordos não eram bem vindos!). Subimos escadas sombrias e apertadas e estamos nas acomodações do paxá e favoritas: uns labirintos de pequenas salas intercomunicantes… Com alguns requintes: umas janelinhas com rede, onde as favoritas podiam olhar o pátio sem serem vistas, um poço central com um elevador por onde subiam as comidas e bebidas, … um cantinho para namorar, com uns tubos de ventilação trazendo ar fresco das caves… enfim, luxos!

À saída de Ouarzazate, com a montanha em fundo, podemos ainda observar do autocarro, os estúdios de cinema (Atlas Studios),com cenários onde foram rodados filmes históricos como Cleópatra, Gladiador, etc.

Continuamos a viagem para Marraquexe com um desvio para visitar o Ksar ou cidade muralhada de Ait BenHadou, património mundial da Unesco, no vale de Asif Ounila. Parece que, após a visita que obriga a um percurso pedestre considerável, iremos aí almoçar, pelo que alguns colegas ficaram logo no restaurante (e nem sabem o que perderam).

Então, com os corações alvoroçados pela espectativa, descemos uma rua mal calcetada, rodeada de casas típicas e infestada de vendedores, e… paramos deslumbrados com a espectacular vista: do lado de lá dum rio seco a imagem em anfiteatro dum burgo antigo, que trepa pelo monte acima até ao velho castelo- atalaia. As casas em adobe, na cor ocre característica (e que se confunde com a cor dos montes) fundem-se com a robusta muralha que as rodeia e as defende dos invasores…  

Atalhamos pelo leito de areia do rio e atravessando hortas viçosas, fomos dar ao caminho dos fundos. Sim, porque a verdadeira entrada se faz por uma ponte e umas torres monumentais, que foram cenário de filmes famosos e que são um ex-libris dos cartazes turísticos e… na nossa pressa, não vimos…

Passada a porta da muralha, subimos então por velhos e estreitos caminhos, por degraus de pedra, vigiados pelas ruinas das velhas casas… Algumas ainda são habitadas e os moradores vivem da venda de artefactos aos turistas. Há até velhos tocando estranhos instrumentos…

Subindo, subindo, acabamos por passar as ruinas do velho forte e com mais um esforço, somos premiados com a magnífica vista… o rio que serpenteia entre colinas erodidas em formas bizarras… a montanha que se agiganta e … elevando o nosso olhar, um céu num tom azul único (mas que nos faz lembrar o céu de Portugal…)

Enfim, hora do regresso

Mas como resistir aos artigos genuínos que se oferecem ali mesmo na sombra da muralha… Adquirir uma bugiganga por simples que seja, é transportar um pouco daquela fantasia!... Apesar dos apelos tímidos do estômago, as senhoras não descolam dos vendedores… e as colegas Fernanda e Margarida, com requintes de regateio, não se despedem sem uns paninhos e umas coisas de madeira que eram para segurar as tendas…

Passado o rio, parei para um olhar extasiado e já saudoso àquele magnífico e colorido cenário: O rio amarelo das areias, a margem verde de palmeiras, oliveiras e outros arbustos… depois a muralha ocre subindo em cordões de casas muralhadas, o velho ksar, e a montanha em tons amarelo e castanho… depois, o céu dum azul luminoso!...

… Depois do almoço e já a rolar à beira do rio, imagino as caravanas vindas do deserto profundo, caminhando ao ritmo dos camelos, percorrendo este oásis a caminho de Marraquexe… Também nós vamos para Marraquexe e estamos a andar para trás, para Ouarzazate. Fiquei intrigado com aquele desvio e agora fui ver o mapa… Ah, bem! Pelo vale deste rio acima há também uma estrada que se vai encontrar com a nossa lá mesmo no cume nos 2000m! Então BenHadou era mesmo um porto de abrigo, uma estação de serviço, na longa caminhada…

Bem! Voltamos a apanhar a estrada N9, são cerca de 200km para Marraquexe. Daqui parte a N10 para Agadir… também era um bom trajecto... Fica para a próxima!

Agora é que vai ser subir! Pelo vale encaixado dum oued, vamos subindo suavemente… Velhas aldeias, ksares em ruinas… mesquitas novas… estamos dentro daquela barreira montanhosa ocre que sempre nos acompanhou… A erosão criou formas impressionantes! Às tantas, começamos a ver do lado direito as encostas amarelas de arenito (?) e do lado esquerdo encostas diferentes mais escuras e de rocha mais dura… Acho que é para aí, lá para cima, que se verificam aquelas alturas de 4000m… o famoso Jbel Toubkal (4167m, as neves perpétuas…) 

Paramos numa estação de serviço, a meio da serra para as necessidades básicas… Tem uma loja de venda de muitas coisas locais interessantes… Gosto das pedras… Compro!... Olhando o fundo do vale surgem dúvidas: o rio leva água ou não? Não se vê, mas tem roupa a secar na relva… portanto a resposta é óbvia! Cá fora surge um cãozarrão tímido… em Marrocos os cães não são estimados… este vem na esperança de apanhar qualquer coisita de comer… As senhoras condoídas arranjam uns bolinhos… quando a esmola é grande, o pobre desconfia, diz o povo… Pois coitadinho, ele nem se atreve! Passo-lhe a mão pelas costas… o pobre treme! Este nunca vai esquecer aquelas senhoras de cabeça descoberta e que lhe chamavam nomes esquisitos mas muito carinhosos…

E assim com muitas curvas e paisagens de sonho, chegamos ao topo.

Passamos os 2000m (Col ou Portela do Tichka – 2260m), um pequeno planalto com umas torres de homenagem aos legionários (que construíram a estrada?) e de repente a paisagem muda para o deslumbramento: estamos a olhar para as encostas do lado norte. Algures lá para baixo está Marraquexe… Agora já se vêem os verdes húmidos da vegetação nas encostas…
Partimos de Ouarzazate a 1160m, subimos 1100m. Mas Marraquexe está a 400m… São 1800m a descer! E por uma encosta quase a pique! Ainda faltam 100km para Marraquexe!

Imagino as caravanas a descer (ou a subir) estas ravinas vertiginosas, sem apoios e bermas seguras, sujeitos a derrocadas… Tempos heróicos!

Numa das curvas apertadas há um miradouro, onde o autocarro pára… Somos logo invadidos por vendedores… Aqui o comércio principal são os minerais: calculo que são seixos cortados a meio… Como pérolas nas conchas de ostras, os cristais brilham: amarelos de pirite? azuis de malaquite?, verdes de cobre? Sei lá! São cores para todos os gostos…

Mas não posso perder tempo com compras, porque a vista é magnífica:
Ao nosso lado o desfiladeiro do Oued Tichka… Por ali abaixo, a estrada enrola-se como cobra e tenta vencer o desnível em voltas apertadas que se divisam até ao fundo do vale! Até onde a vista alcança, são escarpas cinzentas que se misturam mais abaixo em verdes de floresta e lá longe se perdem na bruma dum céu de fim de tarde…

300m mais abaixo, voltamos a abraçar o Tichka, que nos vai acompanhar nesta dança de roda durante muitos quilómetros! São muito mais curvas que as voltinhas do Marão!... São automóveis que nos ultrapassam em acelerações perigosas… são camiões cisterna buzinando e ocupando toda a estrada em curvas apertadas (um elogio para a perícia do Sr. Costa!) … e de repente, surge uma aldeia e os rapazinhos acenam com as conchas dos cristais! Agora são todas vermelhas rutilantes…

Voltamos a ver os montes vermelhos e abrem-se lindas panorâmicas a cada curva… e estamos sempre a descer com o rio ao lado… O dia vai chegando ao fim e… de repente estamos na planície… Marraquexe é já ali!

Ao nosso lado está o magnífico Hotel Kenzi Menaka Palace. Na cor ocre, claro, a cor de Marraquexe… Parece uma Kasba com muro à volta e umas portas monumentais, que transpomos com a cabeça cheia de belas recordações e o estomago vazio reclamando atenção!

Mas depois do jantar ainda se organizou uma excursão ao famoso mercado ao ar livre, que nunca dorme!... Interessante o meio de transporte usado (já que o Hotel fica ainda longe…) Uma fila de Charretes esperava-nos (o nome técnico deveria ser Landau… veiculo de 4 rodas, com tracção a duas mulas, sofá descapotável para passageiros vip e um banquinho nas costas dos cocheiros…).

Linda a procissão de Charretes, pela estrada ao luar… Eis senão quando se dá o imprevisto: paragem forçada devido a um furo… A assistência em viagem demorou, mas os intrépidos cocheiros em colaboração ruidosa resolveram o problema a contento!

O pior foi quando se chegou à confusão do trânsito: Uma charrete já seria complicado, mas uma dezena? Como na selva, os predadores na forma de automóveis, motorizadas e toda a sorte de veículos, rodeiam e imobilizam as pobres presas, coitadas! Mas com grande bravura de palavrões, chicotadas e estremeções, estas lá se libertam…

No terraço do café, os nossos olhos são logo atraídos pela altaneira torre iluminada da mesquita Koutubia, um ex-libris de Marraquexe. Mas logo os baixamos porque aos nossos pés se desenrola a famosa praça-mercado ao ar livre (Jemaa el-Fnaa)… uma multidão de curiosos deambula por núcleos de vendedores instalados desordenadamente… Até nós chegam os sons e os cheiros… Ali estão a assar frangos e cordeiros, acolá há grande confusão com acrobatas, garotos correm lambendo guloseimas, mais além são os encantadores de serpentes sentados no chão com as suas flautas… 


7º Dia – Marraquexe, a mágica cidade ocre …

A cidade é ocre, aliás como todas as que vimos para lá do Atlas… Mas deste lado, é como uma recordação para quem de lá vem e um incentivo para quem para lá vai! Nas cidades de aquém Atlas a arquitectura usa cores e conceitos diferentes. Pensando em Fez, a cor e o desenho urbano não me impressionou por aí alem. O exterior dos edifícios não se destaca, o luxo está no interior…

Marraquexe é considerada a capital do turismo… Para aqueles que não se atrevem a transpor o Atlas, tem a magia dalgo desconhecido, o apelo do deserto que se esconde por trás da montanha… o fascínio doutras culturas, outras comidas, outras gentes…

Quando, numa outra viagem pelo Marrocos litoral, passamos um dia em Marraquexe, ficou-me um desejo intenso de atravessar aquela montanha de base cor de barro e cimos negros perdendo-se na neblina dum céu azul. Agora realizei esse desejo!... Mas outros ficarão!

Uma mulher de armas…

Logo de manhã, iniciamos a nossa visita nos lindos jardins da famosa mesquita Jami´ Al- Koutubiah[5] , cuja torre altaneira se vê ao fundo da alameda.

… JARBI apresenta-nos a nossa guia local: …Uma mulher de voz e porte altaneiro,… uma mulher de armas,… uma revolucionária!

Apresentou-se dizendo o seu nome árabe que não fixei, mas retive a sua tradução: “a Gazela”! E logo ali iniciou um comício de emancipação feminina, onde os homens marroquinos (tradicionalistas) são tratados de abusadores (no mínimo) …

Os infiéis como nós não estão autorizados a entrar na Mesquita, pelo que nos limitamos a apreciar os jardins e caminhar atrás da guia que vai misturando história com apelos à rebelião feminina.

… De negro vestida, lenço preto na cabeça, um albornoz até aos pés, um braço erguido ao céu (com a bandeirinha portuguesa), nariz e boca aquilina,… Lembra-me a Padeira de Aljubarrota, com a pá em riste!

“… Los hombres marroqui no fazem nada! As mulheres cozinham, tratam dos ninhos… e eles deitados no sofá!... Vendo a bola…  Hombres!!!  Qieren mulher esclava! Esse tempo acabou, as mulheres acordaram! Quieres outra mulher como manda o profeta?... Si, mas vás com ela e non voltas más aqui!...”

(Jarbi, o nosso fleumático guia, assiste impávido mas com um riso meio amarelo…)

Em passo acelerado, que ela não é de ficar parada, fazendo jus ao seu nome de Gazela, logo avançamos para outro monumento da cidade: os túmulos Saadianos[6]… Uma seca, se não fora a garra da Gazela, misturando as explicações com novas arremetidas à tirania masculina:

“ Los hombres son uns tolos! Na Europa as mulheres gastam dinheiro nos ginásios, para adelgaçar!... Aqui, qui quieren los hombres? La bunda!... La mesa posta e uma bunda grande e macia e los hombres estan satisfeitos… “

Já estamos de saída, mas a Gazela salta para cima dum banco e pede a nossa atenção:

“Minhas amigas e senhores  portugueses, não fiquem com má impressão minha! Io no soi feminista!!! Io tengo una família estável com vários ninhos e um marido que se porta muito bem! Mas a sociedade marroquina está em transformação e a mulher será quem fará a revolução dos costumes… Inch Alah!”

Caminhamos por uma rua estreita pejada duma multidão em movimento… As motorizadas roncam e apitam estridentemente! Com movimentos contorcionistas conseguem romper por entre nós sem atropelar ninguém … uma proeza! De repente somos literalmente empurrados para uma porta e corredor sequente… Preparem-se que vamos visitar a farmácia mais antiga e famosa do mundo! Remédios para todas as moléstias humanas e… sem químicos, só ervas e produtos naturais…

Uma aula de marketing agressivo: Todos sentadinhos ao redor duma sala de paredes forradas de prateleiras com frasquinhos… num canto, uma mesa que tapa a única saída e onde um técnico de bata branca enumera e exemplifica as doenças e as respectivas curas…

“ … O senhor acorda com uma dor de cabeça, a vista turva, levanta e vê tudo á roda… será da tensão? … Que é que eu comi ontem? será o PDI?... Não importa a causa: aqui temos como aliviar esse mal-estar. Esta planta criada nas encostas dos Himalaias, com propriedades curativas que só os monges tibetanos conhecem…”
“ … e esta pomada é para o reumático! Quem não sente aquelas horríveis dores… blá, blá,blá…
-“ … e agora quero apresentar-lhes uma planta que só se dá nalgumas terras áridas de Marrocos, a famosa Argana! Em terras pobres e agrestes de calcário só sobrevivem as Arganas, as cabras que comem as folhas da Argana e… os beduínos que comem as cabras! Pois das amêndoas desta planta raquítica extrai-se um óleo miraculoso… As senhoras certamente quando se olham ao espelho sentem saudades da mocidade porque a pele já não é o que era… Os cavalheiros sentem saudades da cabeleira farta… Pois com este óleo usado regularmente acabam-se as angústias… as rugas… as entradas da calvície!...Quem não sonha com o regresso da juventude?”

E os atentos ouvintes vão se identificando com os sintomas e achaques sabiamente realçados pelo orador… Na mão têm um papelinho que lhes foi distribuído com a panóplia dos produtos que vão sendo descritos… E põem uma cruzinha no espaço respectivo, bem com as quantidades que desejam (é importante manter continuidade no tratamento, tomem nota de como encomendar mais, temos agentes em Lisboa!...).

A minha folhinha está em branco. Sou um céptico desde que passei por aqui, já lá vão uns anos… isto é apenas uma repetição! O meu vizinho estranha a falta de cruzes:
“ - Então não tem doenças, não sofre de nada?
- Acho que já me habituei aos achaques da velhice…
- Então não acredita nas virtudes das plantas? Olhe que já ouvi dizer maravilhas do óleo de Argana!
- Esse é realmente garantido… E até hoje nunca vi uma cabra careca!... Mas há sempre o risco de danos colaterais,… olhe aquelas coisas que lhes nascem na testa!...”

Mas a minha resistência foi-se abaixo quando o apresentador reparou na minha falta de colaboração…
“- O senhor tem uma saúde de ferro! Uma juventude invejável! Mas os anos não perdoam… Para si temos uma massagem especial… É oferta da casa… Um recuerdo, …Um regalo!”

Foi realmente um regalo! Com cumprimentos e elogios ao jovem massagista… e as gorjetas respectivas, … acabei pagando o mesmo que os outros!

Depois do almoço, uma tarde livre para deambular por Marraquexe: o inevitável souk e a medina! A excitação das compras, das pechinchas exóticas… do bulício da multidão… Na Medina, a visita ao interior duma Madraça: Um labirinto de corredores e cubículos exíguos onde os estudantes dormiam e decoravam de forma repetitiva o Corão… Senti vertigens e uma tristeza por esses pobres jovens roubados ao Sol, à liberdade e ao livre pensamento…

Estava no programa: Jantar num restaurante fora da cidade, apresentação de folclore e um espectáculo hípico… Mas dadas as condições atmosféricas, uma noite fria e o cansaço de muitos de nós, foi alterado para jantar no Casino com espectáculo de variedades…

Que ficou na memória? Além dos petiscos, das toiletes e sorrisos cativantes das senhoras, o espectáculo no palco… Os músicos de branco com tambores e flautas em melopeias típicas enquadrando saltimbancos e malabaristas… uma dança do ventre por artista bem nutrida e já entradota … E uma dança folclórica onde um grupo feminino de rendas na cabeça e lábios bem vermelhos, termina todas as danças com aquele grito típico do Magrebe: um berro ululante de línguas saltitando dentro da boca… Mas aqui com um requinte típico: um guincho agudo no final do “berro gutural taramelado”.

A Teresinha do Porto apanhou o jeito e no outro dia alegrou-nos a viagem com manifestações repetidas desse grito infernal!...


8º Dia – De Marraquexe a Rabat, o princípio do regresso …

Saímos de Marraquexe em direcção ao Norte por uma planície arenosa (Oued Tensift que recolhe as águas do nosso conhecido Tichka). Jarbi faz notar as raquíticas plantações de palmeiras: Parece que essa tentativa de criar um oásis para cá do Atlas já vem dos Saadianos e nunca floresceu mas também nunca foi abandonada…

Noto à esquerda uma linha de montes abruptos… Num deles destaca-se um castelo imponente; Que diabo, parece que já nos esquecemos de que somos os Amigos dos Castelos, devíamos parar para visitá-lo!… Jarbi desengana-nos: é um poderoso e não visitável quartel militar!

Entramos na auto-estrada para Casablanca. São 250 km de terras baixas, planas, convidando ao repouso… Peço ao Jarbi se nos pode falar de temas sociais, clima político, religião… Jarbi medita um pouco, respira fundo, e fala-nos de forma serena e honesta de temas que se vê serem difíceis. Em resumo e em diálogo:

Pergunta: - O rei está a introduzir normas com impacto nas tradições. Não há conflito entre as autoridades religiosas e políticas?
Resposta: - O rei é a autoridade política e religiosa. Os chefes religiosos têm de obedecer ao rei!
P - E não há reacção? Como é que a discordância se manifesta?
R - Existe um parlamento e partidos religiosos e laicos… Mas o rei está acima e deve decidir e ordenar o que for melhor para o povo…
P - E o poder militar?
R - Marrocos está no centro de fortes e antagónicos interesses. O rei, embora sendo o chefe militar máximo, teme e procura o equilíbrio entre os interesses…
P - As chamadas “primaveras árabes” de contestação não chegaram aqui?
R - Essa contestação dirigia-se fundamentalmente ao poder corrupto. Em Marrocos o povo gosta do rei e não o considera corrupto. Tem havido transformações sociais a que o povo tem aderido e correspondido…
P - Há implantação popular da Al Kaeda?
R - Sim, existe esse risco. Mas esses focos estão muito contidos por uma polícia forte e disciplinada…

Bem! Ou o sono tomou conta do autocarro, ou é grande o interesse da assistência, pois o silêncio é total! Mas infelizmente estamos a chegar a Casablanca e o Jarbi precisa falar-nos de temas mais leves…

Uma volta pela cidade e percebemos o seu cosmopolitismo, a arquitectura urbana do tempo do protectorado francês[7]… Passamos uma grandiosa construção branca… parece uma igreja! Jarbi adivinha a pergunta e esclarece:
- Isto é uma catedral católica do tempo dos franceses!
- Então e está aberta?
- Não! Não havia fiéis e foi fechada. Hoje é um museu!

Ficou no ar a pregunta: Museu de quê?

Fala-se em Casablanca e toda a gente se lembra do famoso filme com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Não vale a pena procurar o Rick’s Caffe, porque o filme foi todo rodado em Hollywood. Mas o enredo bem podia ser real pois Casablanca foi como que uma ilha de paz no meio da guerra, o olho do furacão… um lugar onde presas e predadores se enfrentavam dissimuladamente: alemães, franceses, judeus, americanos…


A Mesquita Hassan II

Após o almoço vamos até à beira mar para visitar a enorme e moderna Mesquita que, na versão piedosa, o rei ofereceu à cidade para premiar o seu desenvolvimento.

A amplidão da esplanada da mesquita, toda em pedra e em parte assente em estacas sobre o mar, enquadra uma construção grandiosa em volume e decoração. A torre ou minarete com 210 metros de altura, inspira-se na torre da Koutubia em Marraquexe e impressiona pela utilização maciça do granito e do mármore branco com incrustações de azulejo verde no topo.

A nave propriamente dita, também em mármore branco, de planta rectangular (200 x 100 m), vista de fora parece uma sobreposição de mesas, decorada com colunas e arcadas sucessivas. A cobertura na cor verde (a cor do profeta) integra-se também nessa imagem de “grande caixa”.

A capacidade é de 25000 pessoas na sala de orações, mas de mais de 100 000 considerando a esplanada…

Mas deixemo-nos de números que a beleza e a arte não se medem em números!

Tivemos o grande gosto e a surpresa de conhecer outra guia revolucionária… mas esta de estilo totalmente diferente: branquinha, sorridente, voz meiga, uma ternura!

Entramos (com os sapatinhos na mão), e quedamo-nos embasbacados: as dimensões, as colunas, a luz filtrada por inúmeras janelas, a decoração das colunas e das paredes!... Pelo chão os tapetes indicam-nos onde devemos e não devemos pisar… (um pormenor: mosaicos de vidro mostram e dão luz para o piso inferior onde estão as abluções).

A guia com uma vozinha suave, vai chamando a atenção para alguns pormenores: os candelabros, em vidro de Murano, que pesam não sei quantas centenas de quilos e são baixados electricamente para manutenção… o tecto de não sei quantas toneladas que se abre automaticamente para arejar ou (dizem) de noite para ver as estrelas… e as galerias laterais elevadas só para as mulheres (que nunca se podem cruzar com os homens) …

- Estou a reparar que o espaço para os homens é francamente superior ao das mulheres… Elas não frequentam a mesquita?
- Bem, o Corão permite que a mulher reze em casa e até desencoraja a saída da mulher à rua. Mas há uma altura em que as mulheres são muito mais que os homens. Quando é? Quem sabe?
- Quando há futebol! - Respondem os astutos ouvintes.
- Mas também há uma altura em que as mulheres falham redondamente! Quando é, quando é?... – Pergunta um ouvinte provocador.
- Ora, é na telenovela!... - Responde conspirativamente a guia. E desata-se-lhe a língua sobre o tema da emancipação feminina… Um primor!

É engraçado como as nossas sociedades tão diferentes e até antagónicas no que se refere à religião, se une nos vícios: o futebol e a telenovela…

E estamos de novo na estrada a caminho de Rabat… que é já bem perto!

Ficamos no Hotel Rive. Depois do jantar, o Jarbi propôs-nos um passeiozinho a pé que foi entusiasticamente aceite… E pela avenida fora, uns mais depressa, outros mais devagar, vamos vendo o trânsito, olhando as montras…

O nosso decano Serafim acompanha garbosamente o pelotão da frente… Dou-lhe os meus parabéns. Então desabafa comigo: Já viu, apalpe aqui! Coitado, tem um colete protésico que lhe ampara as costelas… Ainda fiquei a admirá-lo mais.

Mas passados uns instantes é dado o alarme: Alguém viu o Serafim? ... Ele ainda há pouco estava aqui! Ficou para trás? ...Lança-se o alarme pelos núcleos atrasados. Mas a mensagem depressa é devolvida dos adiantados: Já vai lá à frente!

Fizemos uma paragem de concentração numa loja iluminada. Um grande cartaz apresenta um figurão em roupa informal sorrindo displicentemente…

Diz o Serafim: - Olha, quem é este Morcon!...

Caramba! Era o rei Mohamed, ele mesmo que, reparamos depois, está em todas as montras, ora maior, ora mais pequeno, mas sempre em pose informal descontraída… uma mensagem de mudança, de proximidade com o povo!

Nessa noite foi difícil adormecer… Um estabelecimento nocturno debitava música de discoteca… Depois ou o sono foi pesando, ou o ritmo foi descaindo… Lembro-me de sonhar com Ali Baba, ou Aladino… talvez sedado pela música que entretanto mudou para aquelas toadas árabes, tipo lenga-lenga, que eu ouvia em pequeno, na rádio, ondas longas… Que seca!


9º Dia – De Rabat a Gibraltar …

Rabat, a capital do reino, sabe conjugar o romantismo da Medina árabe-andaluz, com o charme da cidade moderna de traço francês. Tem amplos jardins e parques botânicos, uma costa recortada e um rio… Merece bem uma visita!

A visita de autocarro cumpre um ritual… o palácio real e depois o mausoléu de Mahomed V (para mim é uma repetição).

No palácio fazemos aquele percurso pedestre pelo parque ajardinado, em grupos de excursionistas disciplinados e sem misturas, paramos a uma distância conveniente, nada de gestos ou ruídos bruscos, fotografias de forma discreta… Miramos a entrada do “quartel” onde guardas de fardas diversas nos miram a nós!... e retrocedemos para dar lugar a outros comedidos visitantes…

Vamos até ao Mausoléu. Este foi construído nas ruinas duma Mesquita que se pretendia a maior do mundo (mais uma), mas ficaram apenas as colunas ciclópicas… O lugar é lindo, sobre o rio…

Enquanto outros visitam o monumento, eu aprecio os guardas postados à entrada e montados em garbosos cavalos… Um destes não está satisfeito, não pára quieto, desconcentrando o jovem cavaleiro… Nisto chega a Teresinha, com a sua exuberância, o seu coração caloroso…
- Oh, meu querido! Estás nervoso porquê? Perdeste a namorada!… Deixa lá que eu estou aqui, meu lindo!

E destemida arremeteu para o acariciar… Não era bem isso que o bicho estava à espera e reagiu mal à surpresa: relinchando levantou-se nas patas traseiras, quase apeando o cavaleiro. Tudo se resolveu com a retirada precipitada da Teresinha e um coro de gargalhadas…


A Kasbah dos Udaias

Agora sim, após uma volta nas margens dum mar revolto, paramos o autocarro ao lado de altas muralhas de adobe, com uma porta monumental por onde entramos para um espaço de conto de fadas… A porta (Bab Udaya) dá acesso a uma muito antiga mesquita e a uma Medina pitoresca e sossegada, com mais turistas que moradores[8].

Caminhamos por ruelas que nos fazem lembrar a Andaluzia, as suas casas muito brancas e com a típica barra dum azul brilhante e único… Palmeiras nas esquinas, vasos de flores nas janelas, portas e janelas de barras coloridas e um certo ar hispânico…

Vamos descendo encantados e a Margarida vai fazendo fotografias artísticas… E de repente estamos num alpendre sobre o mar… em baixo as ondas entram pelo rio e vem beijar as rochas aos nossos pés… Do outro lado do rio uma cidade moderna. Chama-se Salé e foi no passado refúgio de piratas…


[1] Império do Mali – É um dos grandes impérios da antiguidade africana. Sucessor do Império do Gana, dilatou o território até ao mar englobando o actual Senegal e Guiné. A sua riqueza derivava da produção de ouro e sal e do comércio com o mediterrâneo através do Saara. 

[2] Rota das caravanas – As rotas comerciais de intercâmbio entre as riquezas da Africa tropical e os mercados do Mediterrâneo, tinham inexoravelmente de atravessar o Saara. O centro colector era a cidade de Tombuctu, situada no vale do rio Níger, no actual estado do Mali. Era um centro colector de sal, ouro, pedras preciosas, marfim e escravos, mas também um centro difusor de ideias e em particular do islamismo. De Tombuctu partiam rotas para Fez, Oran (actual Argélia), Túnis, Trípoli, mas também para o Egipto através do Sudão. Nas caravanas reuniam-se mercadores mas também viajantes e peregrinos. A associação em grandes grupos, que chegavam a incluir 50 camelos, tinha por objectivo principal a defesa de malfeitores. Contratavam tribos de beduínos e tuaregues que eram os melhores guias mas também óptimos guerreiros.

[3] (*) Canion do Todra – A estrada continua por este desfiladeiro, atravessando o Atlas. São cerca de 700 km de vistas panorâmicas (acima dos 2000m) até Ben Mellal na estrada de Fez – Marraquexe e atravessando algumas aldeias. Gostava de um dia fazer este percurso!...

[4] Ouarzazate é uma cidade típica do Sul do Atlas, arquitectura de adobe em tons rosa ocre. Conhecida por “a porta do deserto”, começava aqui uma rota de caravanas pelo vale do Rio Drâa e depois pelo deserto até Tombuctu (52 dias, interrompida pelo fecho da fronteira com a Argélia). O rio Drâa resulta da junção de vários rios alimentados pelo Atlas e corre para sul por um oásis muito fértil. A sul de Zágora (a 160km de Ouarzazate) a água desaparece nas areias, mas o seu leito continua até ao Atlântico (cabo Drâa a cerca de 700km e perto de Tan-Tan).

[5] A torre é o minarete da mesquita donde o Muezim chama os crentes à oração. É uma torre quadrangular em pedra vermelha, adornada de janelas com rendilhados de tijolo. Sobre esta outra torre de menor secção e um domo em merlões. Sobre este, apontando ao céu uma lança onde estão espetadas quatro esferas de cobre de diâmetro reduzindo-se para o topo… Tudo isto perfaz cerca de 80 metros… O nome Koutubia significa “vendedor de livros”, o que pode derivar dum negócio que se praticava no souk vizinho…Dizem que esta torre é uma pedra de toque da dinastia Almorávida, sendo copiada várias vezes, inclusive na Giralda de Sevilha e mais recentemente na mesquita de Casablanca.

[6] Os túmulos Saadianos albergam as sepulturas de guerreiros e personagens nobres da dinastia Saadi (Ahmed Al Mansur, o mesmo que herdou o Marrocos post Alcácer Quibir e se apoderou efemeramente do Império do Mali). Por uma entrada estreita e talvez propositadamente escondida, encontramos em redor dum pátio ajardinado, três salas com uma decoração artística impressionante… uma sala para os homens, outra para as mulheres e outra para as crianças. Um pormenor curioso: as campas estão em posição transversal em relação a Meca! Como os cadáveres são depositados em posição lateral, essa é a forma de ficarem com os olhos virados para Meca…

[7] Casblanca é a maior cidade de Marrocos quer em população (5 milhões), quer em poder económico. O seu porto é o maior de Marrocos e um dos maiores de África. No seculo 15 já existia uma cidade berbere chamada Anfa, mas que era um antro de piratas e por esse motivo foi totalmente arrasada pelo poder naval português. Dada a sua situação privilegiada, os portugueses construíram aí uma fortaleza (1515) que pintaram de branco para melhor se avistar do mar e daí o nome de “Casa Branca”. Durante a dominação Filipina o nome mudou para o actual, apesar de se ter mantido sempre uma administração portuguesa autónoma (tal como Ceuta) até ao seu abandono com o terramoto de 1755. 

[8] Quem eram os Udaias? Não consegui descobrir, mas investiguei que os Almorávidas viveram por ali… Os Almóadas quando os derrotaram e castigaram o seu afastamento do Islão puro, destruíram a Mesquita e construíram outra… Mas adoptaram e instalaram-se na Kasba, construindo a forte muralha em terra e sobre o mar. Acolheu piratas e os mouros expulsos de Granada…

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