segunda-feira, novembro 04, 2013

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Postal de Viagem enviado por João Paulo Fernandes Lopes - Cabo Verde - Passatempo de Verão 2013


Inoculação da morabeza

1. Alternativa africana

O destino de férias desejado é facílimo de encontrar todos os anos, pois sei qual é há 38 anos consecutivos. A viagem está marcada, sempre com adiamento. Figura no primeiro lugar da lista, lembrada anualmente, mas quando chega a altura de consultar preços das viagens, nem as promoções permitem o luxo. Partir seria a concretização da coragem de ir, perseguir o sonho e acabar de vez com este desejo permanente: revisitar o país natal, a cidade da infância, rever pessoas e lugares, as casas, as ruas, as árvores, as praias, o pôr-do-sol único a cada fim de tarde, as frutas, as brincadeiras, os cheiros, os aromas, os sons, as cores, a música, a dança.

Porém, mais uma vez, Moçambique ficará para o próximo ano!... Para poder recitar/ viver os versos do poeta moçambicano Gulamo Khan:

“Oh pátria
moçambiquero-te
neste alumbramento
e amar-te”

Adiada a visita, há que escolher outro destino. Uma indicação casual de pessoa amiga leva-me à agência de viagens Pinto Lopes Viagens, até aí desconhecida. As instalações espantam pela originalidade do espaço, com uma parede como galeria de exposição, com fotos de viagens para diferentes destinos, viajantes desconhecidos, paisagens maravilhosas e adivinhadas aventuras, num ambiente de descontração e à-vontade. Um ambiente já de férias...

O atendimento é simpático e profissional, e principalmente paciente para quem não sabe bem para onde vai, apenas para onde não quer ir... mas também para onde não pode ir! Muitas brochuras depois, demasiadas opções, os olhos fixam-se em chamativas fotos de extensas praias de águas transparentes e límpidas, vastos areais e muito sol, como nos filmes! Perguntamos, esclarecemos, pensamos e – aventura! – decidimos pela Ilha de São Vicente, informalmente considerada a “capital cultural” do arquipélago de Cabo Verde.

As expetativas incluem belas praias, sem turbas de turistas e sem uma elevada densidade populacional de toalhas, seus proprietários, familiares e pertences, o encontro e convívio com um povo simpático e hospitaleiro, a gastronomia rica, saborosa e diversificada. Iríamos finalmente conhecer in loco a dita “morabeza”(1)?  Particularmente, esperávamos a descoberta da excelência de um produto “natural” em Cabo Verde que brota daquelas terras áridas como se fossem frutos duma terra fértil: os músicos e a música cabo-verdiana, no seu habitat natural!

2. Exercícios de mentalização

Começa então uma procura frenética de informações, leitura de dicas e guias de viagem, descrições da ilha de São Vicente. Onde os restaurantes, os bares, a música ao vivo, o artesanato, as discotecas, as lojas de música, as livrarias, bibliotecas, arquivos. Ah, também tem praias? Quais são? Onde? A praia de São Pedro mesmo em frente ao Hotel, uma localização perfeita para ir à praia sem levar a “casa às costas”. Há também a praia da Lajinha, junto à marginal no Mindelo. Mais longe, a 1 euro de autocarro fica a Baía das Gatas, famosa pelo festival musical com o mesmo nome, realizado anualmente. Começa a desenvolver-se um processo de mentalização, com a projeção interna de imagens positivas no ecrã da vontade, onde já aparecemos “lá”, imersos no calor do povo e da Ilha.
No fundo do desejo, ou melhor, no cimo e não escondido, está a busca da música tradicional. Sempre a música como motivo de viagem, de descoberta, de aventura! Qualquer programa da viagem deveria referir algo como:
“Inclui: Passagem aérea Aeroporto de Origem/ Música/ Aeroporto de Origem, em voo AIRBUS, em classe L, etc., etc.

3.Nós genti (2)

“O melhor de Cabo Verde é a nossa gente!” (3)

A viagem em avião da TACV (Transportes Aéreos de Cabo Verde) decorre com entediante normalidade. A ligeira refeição servida a bordo é condimentada com a simpatia, a beleza e o aprumo irrepreensível das hospedeiras. A morabeza começa a fazer-se sentir...

Há de ser vivida depois, nas qualidades que encontrámos no povo cabo-verdiano: simpático, instruído, educado, cortês, acolhedor, afável, hospitaleiro, atencioso, gentil, afetuoso. Gente que expressa a alegria num riso radiante, sonoro e contagiante. Sempre disponível para ajudar, informar com disponibilidade e correção, num português irrepreensível, temperado com o melodioso sotaque crioulo! O cabo-verdiano consegue ser vaidoso, altivo e orgulhoso, o que o mantém sempre numa posição elevada: uma proeza de caráter, porque sem prepotência nem sobranceria!

A mulher veste-se duma beleza cativante, acentuada pela simpatia e um encanto indizível, com candura ou deliberado. É moderna, distinta, coquette, veste com elegância, adorno, asseio, é descontraída e descomplexada, mas também charmosa, altiva! Jovial, gentil, com um sorriso doce que (con)funde alegria e malícia, inocência e sensualidade!

Se a música fosse um critério de avaliação do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, Cabo Verde estaria nos lugares cimeiros, como um dos países com maior PMC (Produto Musical per capita). Efetivamente produz tantos poetas e músicos, como escasseia a produção agrícola que a natureza nega teimosamente, em verões secos e áridos, permanentes, intensos e impiedosos. Sejam músicos profissionais, amadores, ouvintes, dançadores de mornas, de batuques, de coladeiras, do Kolá San Jon, de finaçon ou de funaná, ou simplesmente falantes de crioulo, Cabo Verde é um deleite para os ouvidos dum melómano! É claro que os cabo-verdianos têm outras caraterísticas e virtudes aos mais variados níveis: sociais, económicos, políticos, etc. Para o caso, bastam-nos a morabeza e a música!

O lema que ilustra o espírito cabo-verdiano é a expressão “no stress” ou, como canta Bobby McFerrin: “Don’t worry, be happy”, apesar de inúmeras dificuldades de vária ordem. A ilha de São Vicente é a mais atingida pela falta de emprego, com uma taxa de desemprego de 29% em 2012, sendo 73% acima da média nacional de Cabo Verde.

Mas os cabo-verdianos insistem e teimam em ser felizes, fazendo uso da criatividade que aguça o engenho para da escassez inventarem formas de ganhar a vida. Segundo alguns relatam, quando chega o vencimento – quem tem… – é para festejar com grande folguedo, com abundância de comida e bebida e música e… divertir, farrar, viver a vida! Depois... depois logo se vê, “a gente desenrasca” no resto do mês. Quando se pergunta a algumas pessoas em que ramo de atividade trabalham, a resposta não refere, frequentemente, uma profissão reconhecida na Classificação das Atividades Económicas de Cabo Verde (CAE-CV). Mas a expressão “a gente desenrasca” designa o trabalho de muitos.
Apesar das dificuldades económicas, não se veem pessoas a pedir, nem de mão estendida na rua, nem de outras formas mais subtis, por exemplo na espera de uma gorjeta, em bares e restaurantes! É um facto que muito me admirou e espantou, que atribuo ao orgulho e dignidade dos cabo-verdianos.

Por outro lado, nós - os turistas - não somos mirados como um produto exótico e estranho que provoca espanto nem admiração ou curiosidade indiscreta. As pessoas passam por nós, cumprimentam quando é o caso, respondem a perguntas, conversam e convivem com uma tamanha naturalidade que dir-se-ia que já nos conhecemos. Esta espontaneidade de receber o outro ilustra o espírito cosmopolita do mindelense e do São-vicentino em geral, sentindo-se também noutros lugares distantes do centro urbano, por exemplo em aldeias piscatórias, onde é menos frequente a presença de turistas. Somos olhados e recebidos com a maior naturalidade, o que nos faz sentir em casa!


4. Mindelo 

O conhecimento da ilha começa no Mindelo, quando integramos um grupo numa visita guiada à cidade. O grupo expedicionário é composto apenas por portugueses, excetuando o guia Dirceu, natural do Mindelo; eu, João Paulo, e a minha mulher Dina; dois casais: a Manuela e o Diego, e a Ana e o Danilo – todos em visita turística; ainda o José e o Horácio, amigos e empresários em viagem de negócios, entremeada com o lazer dumas férias. Assistir-se-á, entre nós, a um rápido e fácil processo de formação de um grupo que haveria de conviver, com muita animação e diversão durante a semana!

Iniciamos a expedição na Praça Nova, atualmente Praça Amílcar Cabral em homenagem ao herói da luta armada anticolonialista e fazedor da independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau. A Praça tem ainda os bustos de Camões e de Sá da Bandeira e o coreto de traçado lusitano. É o centro da cidade, o ponto de encontro, onde funciona um original “mercado de sedução”: em forma de ritual, aos fins de tarde e para encontrar uma companhia para aquele dia – ou para a vida, quem sabe? - ali se encontram homens e mulheres; estas circulam no sentido dos ponteiros do relógio e os homens ao contrário.

Cruzando-se assim, entrelaçam conhecimentos ou reencontram-se. Esta tradição não se liga porém de nenhuma forma à antiquíssima profissão de comércio de prazeres. Apenas participa quem quer entrar no “jogo de sedução”, sem ser necessário pagar. Qualquer encargo financeiro ficará a cargo do cavalheiro: no bar, no restaurante, na discoteca... ou noutro local que implique investimento na relação estabelecida...

Para não ficarem a pensar no assunto, prosseguimos na visita recordando a data da descoberta de São Vicente pelo navegador português Diogo Gomes em janeiro de 1462. Percorremos a cronologia até 1781, ano que marca o reforço das tentativas governamentais portuguesas para o povoamento da ilha, por forma a defender a baía de Porto Grande (Mindelo) de indesejáveis visitantes como piratas e corsários, entre outras razões políticas, sociais e económicas.

A partir de meados do século XIX, a baía de Porto Grande começa a ganhar vida, com a construção do porto marítimo e com companhias inglesas a explorarem depósitos de carvão para abastecimento das embarcações que rumam o Atlântico Sul, vindos dos mares do Norte. Mindelo foi o nome de batismo decretado pelo Marquês de Sá da Bandeira em 1838, em memória do desembarque do exército de D. Pedro IV na praia do Mindelo, em Portugal. A baía do Mindelo em São Vicente é hoje considerada “uma das mais belas baías do mundo” pelo site www.world-bays.com.

Da Praça Nova caminhamos até à Alfândega Velha – hoje a sede do Centro Nacional de Artesanato. Aqui encontra-se o artesanato típico de Cabo Verde, com algumas peças de artistas com reconhecimento local, por exemplo pinturas em tela e pinturas com areia, miniaturas de instrumentos tradicionais como tambores e cavaquinhos, tartarugas em madeira, em escultura ou pintura – a tartaruga é um símbolo nacional, por virem estes pachorrentos animais desovar às praias de Cabo Verde. Em venda também os souvenirs turísticos e alguns CDs e livros.

Para além das obras dos mais conhecidos escritores cabo-verdianos como Germano Almeida, Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes, alguns autores portugueses: romances, poesia e livros técnicos. Uma oferta aceitável. O Centro tem uma programação cultural regular, com exposições, teatro, cinema, música, mas no dia da visita nada consta em cartaz.

Na Avenida Marginal, na Rotunda da Alfândega Velha (antiga Praça dos Aviadores), a estátua "Posse" (Pássaro), homenageia os navegadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, a propósito da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, numa escala de 13 dias em São Vicente, em Abril de 1922.

Entramos depois no Mercado do Peixe e Lota, mergulhando numa azáfama e burburinho de gente a ver, a comprar, a trabalhar: escamar, lavar, cortar, separar, ensacar, encaixotar. Lá fora, os miúdos no pontão disputam saltos e mergulhos para as águas da baía, alheios a afazeres e obrigações de adultos! Uma grande variedade de peixe: xaréu, serra, atum, garoupa, moreia, albacora, patudo, gaiado, e outros. Um regalo para os olhos que se abrem em apetites... Ficamos a conhecer o refulgente peixe-barbeiro, ou barbeiro-azul, distinto por se pavonear – porém já quieto nos olhos azuis – com uma vistosa pinta amarela junto à barbatana do rabo.

Uma simpática senhora que conta 92 anos enceta conversa e aproveito para lhe pedir para tirar uma foto comigo. Acede e o obturador da máquina recebe uma profusão de cores reluzentes: do sorriso franco, dos dentes branquíssimos, do doce olhar azul marítimo, do lenço garrido, do jeito jovial. A imagem fixada irmana-nos, nas mãos que se apertam numa mútua simpatia! Uma avozinha encantadora!

Logo ao lado apreciamos a réplica da lisboeta Torre de Belém, com uma visita virtual guiada pela Ana e o Danilo, que já tinham escrutinado o edifício no dia anterior, descrevendo-o com pormenores suficientes para ser considerada visitada.

A próxima paragem é um outro mercado, de frutas e legumes, onde faz as honras da casa uma corpulenta, maliciosa e extrovertida vendedora, que nos dá a provar manga e papaia, minúsculas mas saborosas. Experimentamos o sabor acre do tamarindo, que será provado mais doce em forma de pontche, licor do mesmo fruto, suavizado com a mistura de mel de cana de açucar. Entramos ainda num terceiro bazar, o Mercado Municipal, num belíssimo e cuidado edifício com traçado de estilo colonial. No interior é notável a arrumação, o asseio, a organização!

A primeira ronda da visita merece agora um descanso e retemperar de forças, dum modo muito eficaz: o paladar! No Café Ponto de Encontro, numa mesa da esplanada, vamos descobrir o sabor dum petisco tradicional: cacthupa guisod (cachupa guisada - um prato com milho e feijão, carne de porco e enchidos, coroado com uma omeleta ou um ovo estrelado), normalmente acompanhada com café com leite, a meio da manhã, por vezes substituindo um almoço. O prato revela-se forte, saboroso, nutritivo!

Com o forte calor e elevada humidade tropical, impunha-se uma bebida fresca, em vez do costumeiro café com leite, pois estamos a falar de lareiras sobre as nossas cabeças, entre 30 a 35 °C e cerca de 90% de humidade relativa. Saudável para a sauna... gratuita! Experimentamos então o travo saboroso da cerveja local: a Strela, companheira fiel daí em diante, sempre com a sua vestimenta brilhante de vidro verde transpirado de frescura, tamanho 25 cl. A sede esgota o stock na primeira ronda! Num ímpeto, o José, conhecedor de rotas e navegação marítimas, zarpa até à Fragata (4)  ali mesmo ao lado e traz um carregamento de Strelas fresquinhas, consolando os sequiosos comensais!

A expedição continua rumo a uma praça - também Mercado Municipal - com lojas de produtos novos e usados, para orçamentos diversos. Alimentos empacotados, vestuário, calçado, eletrodomésticos, equipamentos eletrónicos, quadros e telas, brinquedos, artesanato cabo-verdiano e senegalês, alfaiatarias e oficinas de sapateiro com “serviço na hora”, enfim, de tudo! Nos cruzamentos ortogonais das ruas que organizam o mercado, as paredes exteriores das lojas exibem belíssimos painéis de azulejos pintados a azul, com imagens alusivas à história e às tradições da ilha, uma oferta da Câmara Municipal do Porto, no âmbito da geminação desta cidade portuguesa com a cidade de Mindelo, estabelecida em 1992.

É notório, por contrastar com um comportamento estereotipado por ser frequente, que os vendedores não são ostensivos, não interpelam os clientes que trazem tatuada, no aspeto e no vestuário, o ferrete de “turista”. Placidamente entretidos nos seus afazeres, podem esperar uma pergunta, uma vista de olhos ou uma compra, mas nada forçam com chamamentos inoportunos e atenções constrangedoras. Algo que todos os vendedores deviam saber de cor ou reaprender!...

Partimos a seguir para um lugar mítico, ainda que despercebido (e talvez seja preferível assim!), na Rua Fernando Ferreira Fortes, a casa onde morou “La diva aux pieds nus”, como os franceses chamam a Cesária Évora. Para os amigos era a Cize. A mais famosa cantora de Cabo Verde, galardão que Cize rechaçava, modesta: “Não sou nenhuma rainha da música de Cabo Verde. Sou uma das cantoras de Cabo Verde. Mais nada.” (Em entrevista ao jornal Ionline, 2010). Sentado à porta, qual guardião, está o antigo motorista. A casa não pode ser visitada, não tem nenhuma placa identificativa. Várias interrogações me perguntam o quê e como terá ela deixado a casa. Que memórias, estórias, vivências, tristezas, alegrias?... Não sei! Aos fãs, legou a sua voz suave, terna, melodiosa e quente, em 24 discos editados durante os 45 anos em que cantou Cabo Verde pelo mundo.

O edifício que apreciamos em seguida é o Liceu Gil Eanes, agora inativa e com projeto para um centro de atividades culturais, ainda não definido o formato ou programa. Uma escola de estilo arquitetónico tipicamente português, indistinto de qualquer Liceu Nacional em Portugal, do mesmo período. Fundado em 1917, funcionou até cerca de 1961, seletivamente vocacionado para os filhos das elites instruídas, os(as) m’ninos(as) d’São V’cente, um elemento de distinção no percurso académico.

De caminho, passamos pelo edifício da Câmara Municipal do Mindelo, edifício colonial que ostenta ainda na fachada principal o brasão de armas de Portugal, para além de um relógio no cimo da torre subida, um auxiliar para a orientação temporal de transeuntes e para a pontualidade de funcionários camarários!

Numa grande praça, formada por uma larga avenida em curva, domina o Palácio do Povo, ex-Palácio do Governador, agora utilizado para receções oficiais e cerimónias protocolares. Um dos edifícios mais marcantes da arquitetura portuguesa, dizem ser o melhor exemplo de arquitetura colonial portuguesa em África.

A seguir assaltam-me memórias de pecados, são reminiscências da catequese e de cerimónias religiosas, ao apreciar a Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Luz, construída em 1862, que ainda hoje relata e confirma a religiosidade dos cabo-verdianos, em enchentes aos domingos e dias santos, com os crentes excedentários a ficar no adro ou mais afastados, à sombra de uma acácia. Uma oportunidade de negócio para a concorrência: a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que já opera no Mindelo, franchisada … O nome da Nossa Senhora da Luz confirma-se pela alvura que o sol realça nas paredes, enquanto as palmeiras em frente lhe dão um ar tropical, luminoso portanto. Duas torres na fachada principal conferem-lhe elementos de arquitetura religiosa árabe e fazem lembrar minaretes. A linguagem arquitetónica é classificada como “Eclética, mistura do estilo neoclássico e árabe.(5)

À noite, o jantar do grupo, sem o José e o Horácio - que foram convidados para uma rave particular com bar aberto, os felizardos! - é no Restaurante Caravela, na Avenida Marginal junto à Praia da Lajinha. Um estabelecimento moderno e acolhedor onde predomina a madeira, a sala de jantar no 1º andar, com varandas penduradas sobre a paisagem de areia e mar, sendo quase possível estar com os pés de molho na água. A ementa consta de aperitivo de pontche de tamarindo, catchupa “rica” e vinho alentejano. Uma confraternização salutar e animada, servida com a simpatia da empregada de mesa. No piso de baixo funciona um concorrido bar e discoteca, onde a batida rítmica de sonoras kizombas faz mover e aconchegar os corpos quentes e transpirados, a lembrar a trova do cantor Tito Paris:

Dança ma mim criola cola na mim
pensa na passá sabe num coladera
(...)
tchiga na mim bô perta'm forte quê pa'm sinti
calor di bô morininha óh Cabo Verde

Após o jantar, uma visita ao Bar Fund d’Mar, bem perto do Palácio do Povo: uma decoração com motivos e esculturas africanos, robusto mobiliário de mogno, serviço atencioso, música agradável e moderna, com êxitos dos tops internacionais. Sente-se na goela a aspereza do grogue velho (aguardente de cana, fortíssima e com um final de boca adocicado pelo melaço), há diversão e animação entre os convivas: anedotas hilariantes, outros episódios humorísticos...

Ainda no Mindelo, outros locais visitados que ficam na memória. A curiosidade leva-nos a espreitar o Café Lisboa e o Sr. Alberto, proprietário, convida-nos a entrar, sem forçar. Simpático e descontraído, conversamos e diz-nos que já trabalhou e tem casa em Lisboa, que visita com alguma regularidade. Diz-se preso na ilha por obrigações profissionais, mas com desejo de evasão para o apelo do cosmopolitismo lisboeta. O bar, pequeno mas aconchegado, faz com que os clientes habituais se sintam como na sua sala de estar. As paredes mostram uma clientela sobretudo composta de intelectuais e artistas. Fotografias do proprietário com escritores, músicos e outros artistas, nacionais e estrangeiros, com dedicatórias autógrafas, comprovam também o Mindelo cosmopolita e a popularidade do Café.

Por indagar, procurar, perguntar avidamente, elaborei uma lista de bares com música ao vivo. Um compromisso cumprido pela agência de viagem, na brochura fornecida! Por falta de tempo não foram visitados todos, mas ficam as indicações.

O primeiro, no agradável Restaurante Gaudí (deste, só o nome...): um ambiente elegante, com bom gosto no arranjo das mesas e na disposição dos talheres, um empratamento moderno e convidativo; a gastronomia revelou-se muito saborosa e o vinho, "Chã" Vinho do Fogo, forte com 14 % vol., fresco e frutado pela casta moscatel branco.

O vinho da Ilha do Fogo merece aqui um destaque, pois Cabo Verde é um produtor vinícola sem relevância, com produção maioritariamente para consumo interno. Leio que é um “Vinho de grande qualidade com características muito particulares, uma vez que as suas uvas são originárias de solo vulcânico. Contém na sua composição, minerais e potássios que lhe conferem um sabor exótico e produzem efeitos relaxantes imediatos a quem bebe.(6)”  Para além desta descrição de enólogo, o palato e o travo doce e fresco lembram o vinho "Terras de Lava" produzido em solos de origem vulcânica, com predominância de rochas basálticas, na Ilha do Pico do arquipélago dos Açores - Portugal.

Voltando ao restaurante, a refeição foi guarnecida musicalmente por um músico anunciado no cartaz à entrada: Augusto Vieira. Um exímio tocador e cantor de mornas e outras modas menos conhecidas! Talvez a voz não seja beneficiada pela acústica do espaço ou pelas caraterísticas da aparelhagem, mas das cordas que maneja soberbamente arranca gemidos de sodade, gritos da vida dura quotidiana, o tagarelar das estórias da rua e do bairro, canta as alegrias das festas e romarias, a religiosidade da procissão e a dança e som dos tambores do Kolá San Jon em devoção a São João Baptista, chora as agruras das secas e os tormentos do mar, da distância da diáspora, recita a paixão e o amor, a raiva e os ciúmes, fala da morabeza, enfim, canta o sentimento dos cabo-verdianos!

No intervalo, fui falar com artista, ficando a saber que é de uma célebre família de músicos, sendo irmão do famoso músico Paulino Vieira, emigrado e com carreira em França há muitos anos, talvez 15 anos ou mais? O Paulino Vieira é um multi-instrumentista, com a fama de ser o músico "mais completo" de Cabo Verde, no dizer de muitas pessoas que me falam dele. Tocou com Cesária Évora e Tito Paris, por exemplo.

Outros bares com música ao vivo:
• Café Mindelo – Rua de Santo António – É um restaurante-bar com decoração moderna e aprazível de cores fortes, um local muito convidativo, descontraído e informal; tem música ao vivo às quintas-feiras.

• Bar Holanda – Avenida Marginal, em frente ao Restaurante Caravela – Bar instalado num edifício modesto, com uma grande esplanada coberta com telhado de zinco, oferece música ao vivo todos os dias.

• Manuel d´Novas Bar – Rua Fernando Ferreira Fortes, em frente à casa da Cesária Évora – Bar que não chegámos a conhecer, mas tivemos informação que tem música ao vivo todos os dias.

• Casa da Morna - Rua da Praia, no 1º andar do edifício-sede do Clube Mindelense - Bar e restaurante do músico e cantor cabo-verdiano Tito Paris, pode chamar-se-lhe a “catedral” da música cabo-verdiana, e outras, em São Vicente. O espaço tem capacidade para cerca de 150 pessoas, com a particularidade de as cadeiras terem inscritos, nas costas em lona - como nas cadeiras dos realizadores de cinema - os nomes de poetas, músicos, cantores e agentes musicais cabo-verdianos, bem como nomes das ilhas. O cliente pode sentar-se na cadeira do seu artista preferido, estando vaga... Pode ser a cadeira do Dany Silva, do Bana, do Chico Serra, do próprio Tito Paris, da Mayra Andrade, da Cesária Évora, da Hermínia, da Lura, da Titina, do Mirri Lobo, do Tcheka, do Bau, do Vadú ou do Princezito. 
Inaugurado em 14 de agosto de 2013, previa a instalação de um restaurante com oferta de gastronomia dos países lusófonos. Para além de música ao vivo todas as quintas, sextas e sábados, o espaço oferece exposições de arte: pintura e outras artes visuais, eventualmente escultura.

No dia seguinte à inauguração, o grupo de amigos recém-formado – João Paulo, Dina, Manuela, Diego, José e Horácio – constitui uma delegação que vai conhecer a Casa da Morna, em romaria. Escolhemos uma mesa perto do balcão, com a vista a abarcar toda a sala e a baía a ver-se da varanda. O ambiente do grupo já está animado de boa disposição, após os aperitivos no Café Mindelo e do jantar no Restaurante Pont d’Água, com uma imagem moderna e design minimalista, boa comida e hilariantes anedotas de inspirados contadores!

O calor da Casa da Morna, apesar das ventoinhas a funcionar, faz-nos transpirar como numa sauna, mas o apelo da música é superior. Em palco, Tito Paris e a sua banda encantam os clientes com mornas e coladeiras! Vários músicos convidados o acompanham: Dudu Araújo, Stewart Sukuma (Moçambique), um cantor de S. Tomé e Príncipe (não fixei o nome), Olavo Bilac (do grupo português Santos e Pecadores) e outros exímios e talentosos instrumentistas, entre os quais o trompetista português Tomás Pimentel.

Bar Casa da Morna, Mindelo: Tito Paris e Banda

Nos intervalos, o Tito Paris circula pelo bar, cumprimenta toda a gente, abraça, conversa, ri, um perfeito anfitrião! Um artista que percorre os palcos do mundo com a sua música e é tão simples, tão natural, afável e atencioso com os clientes, amigos, conhecidos ou simples visitantes. Foi uma noite muito quente, agradável e divertida, com Strelas frescas nas mesas e estrelas inflamadas do calor da música em palco… a magnífica música que se escutou e "sentiu". Uma verdadeira apoteose, pois os nossos destinos de férias têm que incluir sempre música e a Casa da Morna superou todas as expetativas!

A restauração em São Vicente oferece muitas opções, desde um snack-bar a restaurantes sofisticados, para além dos hotéis. A comida, predominada de peixe, é normalmente servida com esmero e aguça o apetite desde logo pelas papilas gustativas do olhar. Na boca também satisfaz, sendo os pratos quase sempre de um sabor divinal com uma mistura de legumes cozidos e arroz branco, de estalo!

A expressão “no stress” está presente também na restauração. Num café, snack ou restaurante, o cliente estrangeiro deve abandonar o hábito de almoçar ou jantar com um tempo determinado. Deve aproveitar para relaxar, fazer yoga ou meditação, murmurando “no stress” como um mantra, pode demorar-se em longas conversas contemplando o interior do estabelecimento ou a paisagem lá fora, pois a cozinha cabo-verdiana segue o muito saudável conceito de "slow food" à letra! Ora, isto misturado com um símbolo nacional - a tartaruga - dá um tempo cronológico que os relógios trazidos de Portugal não conseguem acompanhar!...

Conclui-se que para além da restauração física propriamente dita, os restaurantes oferecem o deleite de paladares e o prazer da gula, mas também a prática de exercícios de relaxamento e massagens cerebrais. Um prazer e um labor salutar para o intelecto também, portanto! Pode até considerar-se gastronomia tântrica! Recordando: “no stress”!

O pessoal da hotelaria e restauração, no entanto, revela competências profissionais de assinalável qualidade, pese embora a frequente demora do serviço, para os hábitos dum europeu ocidental. O atendimento é exercido com a arte de bem servir, com eficiência, correção e simpatia irrepreensíveis, o que enriquece e honra a hotelaria e o turismo em Cabo Verde. Constituiria aliás um exemplo para muitos restaurantes de elevada classificação, em Portugal, por exemplo.

Passando a outros alimentos: do espírito, da alma, das veias cerebrais, da derme que treme com reverberações de harmonia sonora… Para os melómanos, a Discoteca Harmonia, no Mindelo, é um verdadeiro paraíso da música cabo-verdiana: uma loja organizada de forma profissional e atrativa, com prateleiras inteiras cheias de CDs e DVDs de música de Cabo Verde (calcularia em 99%), dados a escutar pela simpática e conhecedora Carina. Tivemos também a casual “assessoria técnica” do baterista e percussionista Antero “Tey” Santos que, por sua iniciativa se ofereceu para ajudar com os seus conhecimentos nas escolhas musicais: Paulino Vieira; “Ayan", coletânea que inclui: Tcheka, Princezito, Vadú e Djingo; Hermínia e Voz de Cabo Verde. Foi um privilégio e uma honra receber do “Tey” Santos uma dedicatória no CD do grupo Voz de Cabo Verde, o qual integra. A Discoteca Harmonia seria transferida para minha casa, não fossem os custos do transporte…


5. São Vicente: à volta da ilha 

Uma visita guiada à volta da ilha permitiu conhecer o interior e outros modos de vida, de camponeses, criadores de gado ou pastores, e pescadores, alguns em simultâneo nas três ocupações.

Começámos pela aldeia de São Pedro, onde contactámos alguns pescadores. Quando me ofereci para acompanhar uma saída para uma jornada de pesca de madrugada, fui desde logo aceite, conquanto em vez da máquina fotográfica usasse as ferramentas da pesca: cordame e velas, navalhas e baldes, fio de pesca e anzóis... Para não ficar mal entre os profissionais, que haveriam certamente de brindar-me com uma tradição de praxe que me iria depreciar como novato, declinei educadamente o “convite”. Nesta aldeia, mais uma vez a simpatia dos habitantes envolve-nos, no sorriso de uma jovem que varre e alinda o terreiro da habitação decrépita. Sentem-se as duras condições de vida, que decorre ao ritmo das marés e da sorte das campanhas diárias, com os barcos a regressarem à praia invariavelmente à míngua das necessidades dos pescadores e das famílias...
Praia de São Pedro: duas gerações de pescadores


Praia de São Pedro: barco de pesca e bares
Na Aldeia do Calhau entramos numa tasca, observados pelos jogadores de cartas à porta que não necessitam de distrair os olhos das jogadas para reparar nos estranhos que ali aparecem. Para lanchar, abrem-se latas de sardinha e põe-se pão na mesa, um petisco de estalo, acompanhado da fresca Strela, preferida à portuguesa Super Bock. Os únicos habitantes que atentam em nós são uns miúdos que se aproximam curiosos, sem no entanto esboçar sequer um sinal de pedir algo. Aquelas caras lindas e aqueles olhos meigos, inocentes e sorridentes, merecem um mimo: uma guloseima, distribuída de surpresa a cada um. Aceitam em alegre gratidão e não ficam à espera de mais nada!

Noutra aldeia piscatória, Salamansa, a hora deve ser de pausa, pois parece uma povoação desabitada. Vêem-se os apetrechos utilizados para o amanho do peixe e as conchas já abertas e sem o fruto, abandonadas quebradas. As casas são modestas, muitas barracas. É notável, no entanto, o cuidado com as habitações, um asseio que lhe dá um encanto kitch, termo que não condiz com as carências evidentes. Ao lado, grandes moradias de emigrantes ensombram ainda mais as casas térreas com a sua elevada altura de construção... alinhada com a posição económica dos donos, notória. Bem perto, um condomínio com apartamentos de arquitetura contemporânea e cores incomuns são sem dúvida um luxo inimaginável para o comum dos mortais cidadãos!

6. Visita a Santo Antão 

Após cerca de uma hora de viagem numa embarcação que faz a ligação de São Vicente a Santo Antão, somos recebidos, à saída do moderníssimo cais marítimo de Porto Novo, por um gigante que nos lança lá da sua altura um sorriso franco e um olhar acolhedor que nos envolve num abraço hospitaleiro, como a velhos amigos. É o nosso guia na Ilha de Santo Antão, o Sr. Silvério! E sentimos a morabeza, outra vez e sempre!

Iniciamos a visita passando pela pequena capela para onde, durante as festas de São João - Kolá San Jon - a estátua do Santo é trazida num andor, desde a Ribeira das Patas, no dia 23 de junho. Um percurso de cerca de 22 quilómetros a pé, a kolar e a rufar tambores, em veneração de São João Baptista. A festa inicia a 21 de junho e termina a 24 de junho, com o regresso do Santo à procedência, que foi para onde fugiu para se isolar por vontade própria, segundo a lenda.

Visitamos depois a Aldeia Cultural “Nôs Reíz” onde estão patentes, em exposição/ instalação, os trapiches. O trapiche é uma “máquina destinada a moer a cana-de-açúcar que consiste numa estrutura fixa onde se encontra um conjunto de ao menos dois cilindros, um recipiente, e um braço destinado a fazer rodar os cilindros. A máquina é movida a tração animal, geralmente bois. (...) A calda obtida da moagem é pouco usada para o fabrico do açúcar, é mais usada para o fabrico do grogue, através da destilação num alambique.” (citado da Wikipedia). Noutras cabanas com telhado de colmo estão representados outros ofícios tradicionais da ilha, porém a entrada foi-nos proporcionada por especial favor, pois o centro só abre em determinadas ocasiões festivas, como por exemplo no Kolá San Jon.

Aldeia Cultural “Nôs Reíz”, em Porto Novo – Santo Antão: trapiche (terpitch, em crioulo)

Na carrinha do Sr. Silvério iniciamos uma ascensão a um outro mundo, às terras altas e áridas de Santo Antão, uma paisagem que atravessamos faz lembrar por vezes uma superfície lunar, deserta, ressequida. atingindo cerca de 1200 metros de altitude. Daqui observamos uma povoação que dali parece de casas minúsculas. Uma vista vertiginosa, à altura das nuvens que teimam em não deixar cair a água que transportam.

O Sr. Silvério conhece todos os caminhos, atalhos, carreiros, todas as pessoas com quem nos cruzamos. Pelo carro que se aproxima já sabe se há de parar ou seguir, pois sabe das competências do condutor nas manobras ao volante! Tal como outros habitantes de Porto Novo, também tem uma terra na montanha onde pratica a agricultura de subsistência que ajuda a “ganhar a vida”.

Pelos caminhos a altíssima cota, vemos ao fundo vales recortados de courelas de terras sementadas mas sequíssimas de um verde seco, à espera de verdejar. As terras e os camponeses aguardam pacientemente que a chuva caia. Se cair, haverá colheita; se não, repete-se o amanho da terra e a sementeira, e espera-se novamente a chuva!

De forma profissional, descontraída e paciente, o Sr. Silvério transmite-nos informações e sólidos conhecimentos sobre Santo Antão: as gentes, os costumes, a gastronomia, o clima, a agricultura e a vida dos habitantes, entre outros. Sentimo-nos mais enriquecidos culturalmente!

Ficou-nos gravada a sua afirmação - sábio lema de vida? - quando contou que, apesar dos convites dos filhos para os visitar noutras ilhas, lhes responde que "eu gosto é de andar nas minhas montanhas"! Esta expressão espantou-nos, por demonstrar o amor e respeito pela natureza, pela terra-Mãe.

Um afeto e dedicação a uma Mãe-natureza que, reiteradamente, não compensa os árduos esforços dos corpos magros e estoicos dos agricultores em terras secas e criadores de gado em pastos de pedra em vez de erva. Dos que adubam as terras com o suor da religiosa esperança de chuva, com a fé dos Santos a que consagram os seus destinos e com a hipoteca que fazem aos caprichos meteorológicos!

Olho para estas mulheres e homens que trabalham a terra como heróis de uma guerra desigual. Lutam com talento, dedicação, admirável perseverança, em íngremes sacrifícios de socalcos improváveis. Com a vantagem de divisar a totalidade dos campos de batalha lá do Alto, em vez de bombardear com água, o Inimigo teima na tortura desumana da dúvida, da espera, da ânsia, da incógnita!

Lembram-me os “imprescindíveis” do poeta alemão Bertold Brecht:

Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis

Ao passar na pequeníssima aldeia de Chã de Mato – Corda, fazemos uma pausa. Enquanto apreciamos a paisagem ao longe e ao fundo, o Sr. Silvério cumprimenta os habitantes, seus companheiros de luta da terra. Neste entretanto, encontramos um artesão de cestaria, o Sr. Matias, em plena laboração. Admirada a obra, a Dina encomenda uma cesta feita com tiras de cana-de-açúcar, o que aguça o empenho do artista, para a finalizar com aturado esmero e a perfeição exigida! À sua volta, brincam e atrapalham o seu trabalho, um menino e seis meninas, seus sobrinhos. Conversamos com os miúdos, como se chamam, que idade têm, que ano frequentam na escola, de que clube de futebol são, etc.

O miúdo é o Sidney, de 8 anos, riso solto e olhar vivo. É Portista dos quatro costados e nenhum aliciamento para mudar de clube o demove! Simpatizamos mutuamente e ofereço-lhe uma esferográfica, azul como o do Futebol Club do Porto do seu coraçon (que rima com coraçõm, do Puôrto!). Radiante, exibe-a pendurada na gola do polo, em cima da cabeça, na mão a escrever o nome no meu caderno, para mostrar como tão bem sabe desenhar as letras, descendentes na página sem linhas! Engana-se, insiste e retoma, lavra a custo a última letra do apelido, cansado mas triunfante e orgulhoso da proeza! Ri de satisfação, frente às primas e à irmã.

Surpreende-me depois: pega-me na mão e beija-a em jeito de receber a bênção de um familiar mais velho. O tio explica-me que isso simboliza amizade e respeito! Em brincadeira, eu e a Dina perguntamos-lhe se quer ir connosco para Portugal. Sai-lhe um entusiasmado “sim”, quase num salto, pronto para partir, inocente!

Selamos com ele um “apadrinhamento” informal, prometendo mentalmente que faremos o possível para o apoiar, com envio de material escolar, roupas, calçado e brinquedos. Não é caridade, mas simpatia, afeição e partilha. A pobreza, por ser tão óbvia, nem sequer precisa ser evidente.

Às meninas, a Manuela distribui batons e outros produtos de beleza feminina, que usam logo, felizes de vaidade e garridice! O encontro atrasa a visita, mas é compensadora, pela simpatia mútua. Prometemos então ao Sr. Matias enviar as fotos que tirámos com eles e também material escolar para os miúdos. E cumprimos.

Nos últimos dias da estadia em São Vicente, travámos conhecimento com um casal no mesmo Hotel, a Guida e o Alfredo. O Alfredo tem contactos numa ONGD que envia material para Cabo Verde. Perfeito! Ademais, são os dois moçambicanos, o que mais nos torna próximos!

Após um delicioso almoço na Ribeira Grande, não sem que antes tivéssemos esgotado várias infrutíferas tentativas de descobrir onde nos servissem um funguim(7), seguimos viagem para a parte ocidental da ilha. Passámos então por paisagens mais atrativas, de um verde mais conforme com o clima tropical: terras de cana-de-açúcar, bananais, palmeiras, fruta-pão, batata-doce, mandioca, milho.

O Sr. Silvério não desiste de nos mostrar tudo que considera essencial para que levemos uma “macrofotografia” da ilha e das “suas montanhas”. Um excelente comunicador, com a particularidade de manter o sotaque francês de 14 anos a trabalhar em França, e usar termos que misturam o português e o francês, o que lhe dá uma certa graça ao discurso. Mesmo um sotaque assim, uma mistura de crioulo, português e francês, uma sinfonia de sons!

Chegamos assim a uma povoação onde, pela primeira vez, vemos um curso de água digno desse nome. Do local (Xôxô) avista-se o Topo da Coroa, o ponto mais elevado de Santo Antão, com 1979 m de altitude. Um monte homenageado pelo multi-instrumentista Bau(8), no álbum “Tôp d'Coroa”. Levamos imagens mais paradisíacas, por assim dizer, para que não fique apenas a ideia de terras desérticas.

7. Hora di bai(9)  

O dia da partida é custoso, para mim e para a Dina, e para todos os outros amigos. Passámos ótimos tempos juntos, convivemos, divertimo-nos em sessões de humor de fazer doer o estômago! Uns são engraçados por natureza, usando mímica; outros têm um humor crítico, observador, certeiro; outros privilegiam o nonsense, outras as anedotas esotéricas, há ainda o humor de caserna. Numa ocasião tomámos de assalto um restaurante com as nossas gargalhadas incontroláveis. Fomos certamente inconvenientes para alguns dos comensais, mas “no stress”, sem problema. A educação e paciência dos empregados permitiu-nos o desvario próprio da descontração dumas férias! Nalgumas pequenas pausas chegámos até a falar de assuntos sérios, como trabalho, negócios, profissões. Outros desatinos!

No fim de uma semana intensa de vivências e prazeres, sinto-me um cidadão de São Vicente, pertenço à terra, ao mar, ao sol desta ilha. O fortíssimo calor e a densa humidade permitiram que, pelos mesmos poros que se abriram para debitar a transpiração que me molhava constantemente a cabeça, as costas e os braços, se entranhasse e ficasse inoculado o espírito da morabeza. Que ficasse sedimentado o amor pelas gentes, lugares, costumes, gastronomia e música de São Vicente!

O Paulino Vieira canta “M’cria ser poeta”. Pois eu canto “M’cria ser Kriol”!

E mais do que canto - declaro! - com os Mendes Brothers(10):
Kabu Verdi bó ten na mi
Un fidju fiel
Un fidju amanti
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Notas
1. Por motivos de privacidade, os nomes das pessoas citadas são todos fictícios, excetuando o meu, João Paulo, o da minha mulher, Dina, e os nomes de artistas (músicos, escritores e outros).
2. A viagem descrita decorreu entre 09 e 16 de agosto, através da Pinto Lopes Viagens, Agência do Porto.


O autor,
João Paulo Fernandes Lopes
Porto, 2013/10/31
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(1) Morabeza: Qualidade de quem é amável, delicado, gentil. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/morabeza [consultado em 27-10-2013].
(2) A nossa gente (em português).
(3) Frase de campanha institucional do Banco Comercial do Atlântico de Cabo Verde. (notícia em www.bca.cv, em 06.09.2011).
(4) Nome de Supermercado.
(5) LOPES, Sheila Cristina Santos - Uma avaliação estética–filosófica da arquitectura Mindelense: o caso da Igreja de Nossa Senhora da Luz. [Praia]: Universidade de Cabo Verde. Instituto Superior de Educação, 2006.  [em linha],  http://hdl.handle.net/10961/1780  [consultado em 27-10-2013].
(6) SILVA, Rita Vaz da - "Chã", Vinho do Fogo: produzido nas encostas do vulcão da ilha do Fogo. In Sapo.cv [em linha]. 15/06/2009.  http://viajar.sapo.cv/descubra-o-pais/lazer-e-cultura/cha-vinho-do-fogo [consultado em 30-10-2013].
(7) funguim é um pastel feito de milho e geralmente come-se ao lanche no fim do dia.
(8) Bau é o nome artístico de Rufino Almeida, músico natural de São Vicente.
(9) “Hora di bai” significa hora da despedida, hora da partida e é o título de um romance: FERREIRA, Manuel - Hora di bai: romance. 3ª ed. emendada. Lisboa: Plátano, 1972.
(10) Grupo musical cabo-verdiano, radicado nos Estados Unidos.

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