terça-feira, outubro 15, 2013

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Postal de Viagem enviado por José Pereira Costa, sobre a viagem à Arménia e Geórgia


Gamarjoba! (*)

Júbilo em nova viagem, tendo sido o destino a Geórgia e, com a devida vénia, a Arménia, países que voltaram a ser independentes após o fim da URSS.
É-se, naqueles países, constantemente confrontado com manifestações de simpatia, alegria e grande simplicidade pelos seus habitantes, mau grado, por outro lado, os seus alfabetos, para nós indecifráveis e distantes. Instantes, contudo, que, naturalmente, vamos reter por bastante tempo.

Tento, neste relato, referir o que de facto considero relevante. Ante tanta beleza natural e cultural, não é fácil a escolha.
Calha, então, registar as visitas feitas a diversos museus, mosteiros e a locais de culto das diferentes religiões.
Legiões de turistas é que ainda não são, infelizmente, vistas por lá, já que bem merecem pelo tanto que há para ver, descobrir e fruir.

Ir à Geórgia, cujo nome, em persa, Gorg, quer dizer "terra dos lobos", é visitar os mosteiros de Bodbe, em Sighnaghi, o de Jvari, na cidade de Mishketa, ambos construídos no séc. VI, sendo este, a par da catedral Svetitskoveli, construída no séc. XI, também naquela cidade, considerados Património da Humanidade pela Unesco. Em Vardzia visitámos um mosteiro medieval com frescos sumptuosos da rainha Tâmara. Tomara que o tempo fosse maior para melhor poder usufruir de tal beleza.
Uma certeza foi constatada em Gori, na casa-museu de Estaline, o do seu estilo fotogénico, de jovem bem apessoado, mas passado pouco tempo transformado em personagem demasiado controversa.
Conversas, com versos, prosas, rosas,  flores e votos, com enredo, em redor dum casamento, momento em que, inclusive, participámos na igreja de St. Hrspine, já na Arménia, o primeiro país a adoptar o cristianismo como religião, no ano de 301, e um sentido respeito quando da cerimónia da celebração duma missa pelos seminaristas na catedral de Echmiadzin, são, ainda  assim,  escassas, na realidade, as memórias  daqueles espaços também considerados Património da Humanidade.
A verdade é que em cada dia novas surpresas nos esperavam e davam páginas sem fim. Assim, a visita ao mosteiro de Gherard, igualmente Património da Humanidade, é a de um momento assaz marcante e, ante a visita ao templo pagão de Garni, do séc. I, temos uma primeira imagem do monte Ararat, onde o patriarca Noé terá aportado com a sua arca no fim da sua viagem.

Imagem pungente que fica e nos toca deveras é a visita ao museu do Genocídio do povo arménio, que aconteceu em 1915, tendo sido presos e exterminados mais de 1,5 milhar de  cidadãos.
Mãos que em Khor Virap, onde S. Gregório, o Iluminador, um dos patriarcas da Arménia foi preso pelo rei pagão Trdat, se ergueram para fotografar o mais de perto possível o já referido monte Ararat, mas que, de facto, se encontra actualmente, na Turquia.
Ia, a visita, em interesse crescendo, sendo que no mosteiro de Noravank, construído no séc. XII,  ousámos entoar uma canção, mera intenção apenas, onde a acústica é fantástica.
E a viagem turística caminhava para o fim, não sem termos estado no lago Seven, a mais de 2000 metros acima do nível do mar, e até chegar ao  mosteiro de Sevanavank ainda subimos bastantes metros mais, onde tivémos o privilégio duma paisagem bela e infinita.
Bonita a visita ao mosteiro medieval de Haghartsin, com o seu famoso refeitório e as omnipresentes cruzes de pedra (Khachkars), com enorme significado espiritual.

Afinal, ainda tinhamos mais para conhecer, e o tanto que ficou, seguramente, por saber, mas as visitas aos mosteiros de Sanahin e Haghpat, também ambos declarados Património da Humanidade, quase na fronteira da Arménia com a Geórgia, mostraram-nos uma nova maneira  da sua arte religiosa.
Famosa, e, de novo em Tbilisi, a Basílica Anchiskhati, do séc. VII, mas também a Ponte da Paz, o que trás à memória os inúmeros edifícios de arquitectura georgiana ousada e contrastante,diante da qual nos surpreendemos agradavelmente.
Minto se disser que a alimentação não foi também bem agradável, saudável, bem apresentada e colorida, bastante fotografada, para mais tarde ser recordada. E recordando que  "nem só de pão vive o homem", a verdade é que fomos presenteados, quase todos os dias, sem grandes queixas, com várias iguarias, desde saladas variadas, a queijos, a pães, a peixes e carnes, frutas, doces, a cujos tratos várias vezes assistimos.

Sentimos, em vários lugares, os nectares de diferentes vinhos das inúmeras castas, que na Geórgia são cerca de 550, e na Arménia quase tantas, brancos e tintos, com distintos sabores.
Sabedores ficámos com o conhecimento de que os Argonautas foram os primeiros habitantes da Geórgia, ao tempo chamada Cólquida, onde foram à procura do velo de ouro, comandados por Jasão.
Razão para aumentar o nosso contentamento foi a ocasião dúplice a quem assistimos, à noite, tanto em Yerevan (capital da Arménia) como em Tbilisi (capital da Geórgia), cidades cheias de vida e convívio, ambas com um pouco mais de um milhão de  habitantes,  de deslumbrantes e tangíveis espectáculos, momentos de magia, música e água. A mágoa é que este último espectáculo coincidiu com o fim da viagem. Imagens que, de certo, reteremos e nos fazem pensar que no nosso país este tipo de espectáculos não existe, apenas perscrutamos o silêncio do breu.

Breve nota solta: os saltos que demos mas voltas em redor de tamanhas montanhas, ora áridas e agrestes, por entre ciprestes dos cemitérios plantados a beira da via onde havia falta de asfalto, o que nos mereceu comentários soezes, outras vezes atravessamos vales reverdecentes de cortar a respiração. São  também outros contrastes que trazemos como recordação.

São igualmente de registar outros museus que meus apontamentos ditam, ou seja visitamos em Yerevan os Museus da História da Arménia e o do Manuscritos, e em Tbilisi, o Museu da Arte do Tesouro Georgiano, pelo que ufano fiquei com tantas informações e história disponível, mais razões para ter esta viagem bem presente na memória.
Remoro ainda para as idas às grutas trogloditas que visitámos em Uplistsikhe e em Vardzia, sendo que as ditas remontam ao Antigo Egipto, nas proximidades do mar Vermelho.
Um conselho meu: o apóstolo Bartolomeu, outro dos padroeiros da Arménia, é também o patrono dos gagos e, assim, do nosso rei D. Pedro I,  está igualmente bem presente no mosteiro de Alcobaça. Então aproveite e faça, ou refaça, uma visita aos pulcros sepulcros de Pedro e Inês.
E neste registo final, não resisto em reiterar o prazer de, quando possível, viajar, conhecer, partilhar. E tanto mundo para saber!   

(*) Olá, em georgiano.

José P. Costa
Fotografias de autoria da Guia Sofia Pinheiro

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