segunda-feira, outubro 14, 2013

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La Boca de Buenos Aires, Argentina: um dos bairros mais coloridos do mundo


O bairro mais famoso e alegre da Argentina foi inicialmente um lugar triste, lúgubre, sem cor. Era habitado pelo povo quilme, que, com todas as forças concentradas no trabalho e o seu modo rude de ser, ajudou a erguer Buenos Aires de uma perspectiva meramente funcional. A beleza só chegou depois, com os italianos que atracavam nos portos Madero e Nuevo.
Oriundos principalmente da cidade de Génova, estes imigrantes começaram, a partir de finais do século XIX, a fazer de La Boca a sua casa e a decorá-la a seu gosto, recorrendo aos materiais que sobravam da vida portuária. Os conventillos, designação que adquiriram as modestas casas, eram feitos de madeira e de chapa estriada. E as cores que actualmente lhes conhecemos, tão vivas e marcantes, eram obtidas através de restos de tinta que também se encontravam no porto. Uma forma de construção tão humilde acabaria, contra todas as expectativas, por apaixonar artistas como Benito Quinquela Martín, que, mesmo após a necessidade se esbater, incitou a população a mantê-la e se tornou responsável por muitas das pinturas do estilo.
Do rio Riachuelo chegaram não só as cores vibrantes, mas também a típica gastronomia italiana, que se instalou sob a forma de restaurantes barulhentos e repletos de boa disposição, e o estatuto reforçado de La Boca. Com efeito, no ano de 1882, o bairro foi reconhecido como uma república independente e Alfredo Palacios ficaria na história como o primeiro deputado socialista graças aos votos dos seus imigrantes.

Todo este ambiente começou a esmorecer somente no século XX, altura em que a afluência aos portos diminuiu drasticamente e os imigrantes já estabelecidos regressaram às suas terras-natal ou, em alternativa, se mudaram para o centro da cidade. Mas, ainda que as ruas já não possuam a alegria do passado, o bairro de La Boca continua a ser essencialmente ocupado por estrangeiros, não italianos, mas bolivianos, peruanos e paraguaios, cuja pobreza nunca deixa de impressionar os turistas que o visitam em massa.

A “calle” Caminito


A mais conhecida rua de La Boca, o Caminito, nem sempre foi uma. Até meados do século XX, quando Quinquela Martín se apercebeu do seu potencial, ela não passava de uma via ferroviária inactiva. Especialmente para a sua inauguração, em 1959, Juan Dios Filiberto compôs a melodia do tango homónimo “Caminito” – provavelmente o mais famoso do mundo –, mas o que poucas pessoas sabem é que Gabino Peñaloza, o autor da letra, nem sequer se lembrou daquela rua ao escrevê-la. Segundo o que se conta, o poeta inspirou-se, em vez disso, no Caminito da província argentina de La Rioja.

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