sexta-feira, outubro 18, 2013

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Postal de Viagem enviado pela escritora Raquel Ochoa, sobre a viagem que acompanhou "Cabo Verde é Música"

«Primeira impressão: sorrisos sinceros no aeroporto, não tive dúvidas logo de início, reuníramos um grupo de pessoas que se sabia divertir. Afinal o destino escolhido era Cabo Verde onde o tempo pouco importa desde que em boa companhia.
S. Vicente foi a primeira paragem e o restaurante Sôdade, com uma vista gloriosa para o Monte Cara, o nosso primeiro momento de convívio. Apresentámo-nos sentindo o calor da ilha e o almoço acabou com o nosso guia e cantor Edson a interpretar uma morna de “boas-vindas”. E que voz!
Passeios durante a tarde e noite do festival Baía das Gatas, a junção de todas as dez ilhas num só evento musical. Titina Rodrigues esteve como cabeça de cartaz e viria a ser uma das maiores surpresas dali a uns dias para o grupo Pinto Lopes.
A Praça Nova, o Café Lisboa, o Mercado Municipal e o do Peixe, quase todos os ícones do S. Vicente de outrora estiveram na nossa mira e voltámos ao Festival Baía das Gatas para segunda ronda de música, já no segundo dia.
A última ilha a ser povoada, além de marco da cultura, é uma constante evidência da mestiçagem, em cada pessoa, em cada tom de pele, em cada inesperada cor dos olhos com que nos cruzamos. Consegue-se intuir todos os povos que por aqui passaram e deixaram os seus genes.
Também conhecemos as praias mais desconhecidas Salamansa e Sandy Beach. Nesta última não havia literalmente ninguém e foi preciso os guias inaugurarem os mergulhos pois o mar e a praia assim desertos pareciam ainda mais imponentes.
Ao terceiro dia viajámos para a ilha de Sto. Antão, o celeiro de Cabo Verde, a ilha das montanhas e desfiladeiros, a sensação de estarmos em plenos Andes no meio do Atlântico. A grande surpresa foi a companhia da cantora Titina Rodrigues, com quem privei na altura da investigação que levei a cabo para escrever a biografia de Bana. Sugeri-lhe na brincadeira que nos acompanhasse. Para meu espanto, decidiu fazer o tour connosco durante os dois dias. Quando perguntei ao operador local quais as condições a resposta foi imediata: “A Titina é obviamente nossa convidada. É uma honra.” A verdade é que entrámos na ilha natal de Titina a ouvi-la cantar as suas mornas de infância, um privilégio que ninguém nunca conseguirá esquecer.
A animação, por essa altura já estava instalada, as conversas cruzadas tornaram-se a música de fundo. Todas as idades estavam representadas praticamente, dos dezasseis aos setenta e dois anos.
Também nesta ilha fizemos o primeiro de quatro workshops de escrita criativa, mais de metade do grupo participou. Risos, empenho e descobertas. Prometia…
A melhor cachupa de toda a viagem foi servida ao almoço do último dia em Sto. Antão e bem precisávamos dela porque junto à aldeia das Fontainhas houve um baile espontâneo (sem música) mas com dançarinos de arregalar o olho.
Restava a Ilha de Santiago e o encontro marcante com a história que nos proporciona. Embora chegássemos acompanhados por uma bátega que metia respeito, o tempo depois de almoço transfigurou-se e foi sob sol e acompanhados pela interessante explicação de Salazar Santiago o nosso guia local, que visitámos a Fortaleza de S. Filipe e a Cidade Velha, o primeiro interposto de escravos, a peça chave na nossa história à frente dos nossos olhos e todos os sentimentos contraditórios que naturalmente despontam neste local.
De seguida visitámos o Plateau, a parte mais antiga da cidade da Praia e recolhemos aos confortos. Os jantares e almoços, diga-se de passagem, quer pela morabeza, quer pelo vagar com que são servidos, quer ainda pelo arrastar das conversas entre nós, demoravam sempre algum tempo.
O penúltimo dia foi dedicado a conhecer o interior da ilha, observava-se o esforço comovente dos agricultores que cultivam nos socalcos a grande altura, à procura de terra fértil e água. Também visitámos a prisão do Tarrafal, esse edifício envolto em paisagem árida e que obriga sempre a um silêncio perturbador.
Almoçámos na praia do Tarrafal e usufruímos de uma tarde sem planos.
O mesmo no dia seguinte, até regressarmos à Praia, onde jantámos com música ao vivo no famoso “Quintal da Música”. Os dançarinos voltaram a mostrar o que valiam até à hora de voltar.
“Cabo Verde é Música”  mas é sobretudo as pessoas que a sabem apreciar. Que prazer este meu regresso em tão boa companhia!»
Raquel Ochoa
"Viagem Cabo Verde é Música -16 a 23 de agosto de 2013"   16 a 23 de agosto de 2013

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