terça-feira, agosto 06, 2013

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Postal de Viagem enviado por Isabel Lourenço - Namíbia com a PLV e Gonçalo Cadilhe - Passatempo de Verão 2013

Um pedaço de África

«16/7 – Pelas 4h batem à porta; sinal para vestir e andar. Pelo caminho bebe-se um chazinho e pega-se no saco com o pequeno almoço. É noite serrada e está um friozinho agradável (pelo menos para mim, que estou agasalhada), sem vento. Mesmo assim, pelo caminho no truck calço umas meias suplementares, emprestadas por alguém mais experiente e friorento. GC vai dizendo que estamos entre dois cordões de dunas, mas só se vê a estrada iluminada onde vamos a 100km/h.
Quando saímos do carro é lusco-fusco e percebemos que estamos rodeados por montanhas de areia vermelha, ainda de tom esbatido. Subimos a uma delas (a Big Mama, com um comprimento de 200km (!!!) ). A areia é super fina, muito mole, não sei como é que ninguém resvalou por ali abaixo. É um prazer tocar-lhe e fazê-la passar por entre os dedos. Vão passando algumas aves e a luz vai aumentando e com ela as sombras. O cenário revela-se cada vez mais deslumbrante. Para mim torna-se comovente pois vou também imaginando como se formou esta paisagem e como é duro e inspirador viver nela. Entretanto vou acariciando a areia (ou ela a mim?) e observando tanta duna em redor, uma infinidade de grãos de areia, tão leves, tão finos, tão macios, tão belos, cada um deles. O sol não parou de subir, a temperatura também, e descemos para tomar o pequeno almoço. Pelo caminho abundam os trilhos de pequenos seres, repteis, insetos, aves e mamíferos. Até algumas tocas se vêem na base da grande duna. Também os dejetos denunciam a presença de gazelas, que se avistam nas redondezas.
Terminada a primeira parte do pequeno almoço, de novo no jipe, para as proximidades do lago morto.
Mais uma caminhada na areia dunar, entrecortada por terreno mais consistente, com ar de argila, rica em sais, seca e quase branca no meio do vermelho.
À nossa esquerda a duna Big Daddy, com um comprimento de 250km (!!!) e neste local com uma altura de 400m. Entre a Big Mama e o Big Daddy vai uma distância relativamente curta, prevendo-se a possibilidade de virem a unir-se.
No cimo de uma subida avista-se o anfiteatro que ladeia o lago morto. É surpreendente. Anfiteatro laranja/vermelho, palco branco, atores principais as velhas árvores enegrecidas. Tudo estático, num ato dramático que dura desde há 600 anos, quando o movimento das dunas impediu que as águas do rio Sossus conseguissem aqui chegar, mesmo sendo só a intervalos de 10 a 20 anos. Desde então esta depressão não tem como ganhar sequer humidade. A madeira das árvores está tão seca que nem os insetos a atacam. Foram condenadas à eternidade estática, fantasmagórica.
Agora a história das próprias dunas, que consegue ser ainda mais dramática e longa, em tempo e em espaço, que a das pobres árvores.
 A história de cada um dos grãos de areia começa no deserto do Kalahari, no Botswana. Cada um deles saberá como foi levado até ao rio Orange, mas depois de lá cair viajou até à África do Sul e daí até ao sul da Namíbia, onde faz fronteira entre os dois países, desaguando no oceano Atlântico. Aqui o grãozinho é já adolescente e apanha boleia na corrente fria de Benguela, que o arrasta para norte até uma das praias da Namíbia, onde as diferenças de temperatura entre a água fria do mar e o ar quente do deserto provocam ventos que o arrastam para o interior. Aqui vai ficando adulto, redondinho e mirradinho, e junta-se a outros que como ele completaram esta viagem de milhares de quilómetros em 5 milhões de anos, dando corpo a cordões dunares lineares, paralelos à costa, com centenas de quilómetros, penetrando no interior 60 a 80km, cobrindo uma área equivalente à da Suíça. É avassalador.
E fico com ainda mais desejo de ir ao Botswana, ver o início desta epopeia (voltarei a África?).

Extrato do caderno de viagem de IL
(quiçá uma história de embalar para a Christina) » Isabel Lourenço

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