sexta-feira, agosto 23, 2013

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Postal de Viagem enviado por Maria Isabel Sousa e Manuel A. Nogueira de Sousa - Namíbia com a PLV e Gonçalo Cadilhe - Passatempo de Verão 2013


Introdução
Em janeiro 2013, quando antevíamos as grandes viagens que gostaríamos de fazer dentro dos próximos 5 a 7 anos, jamais pensamos em visitar a Namíbia. Aliás tínhamos previsto uma viagem a África, para fazer um safari, mas a hipótese mais consistente era o Quénia e a Tanzânia e uma estadia em Zanzibar, para relaxar da viagem pela savana africana, a ver animais selvagens.
Mas … como tudo muda depressa!

Uma conversa no café - que temos por hábito frequentar todas as manhãs - com um amigo nosso, que nos falou da Agência PLV-Pinto Lopes Viagens e da sua proposta de roteiro “A Namíbia no Universo”, que ele próprio um dia gostaria de fazer, foi o toque para a mudança. No dia seguinte trouxe-nos o catálogo. Analisamos o programa previsto para a viagem, que no nosso entender estava bem construído e tinha um aliciante extra: era uma viagem de autor com a presença do Gonçalo Cadilhe que nós, apaixonados pela literatura de viagens, gostávamos de conhecer. Foi como se diz na gíria popular “tiro e queda”.
No dia seguinte estávamos a enviar um “email” para a agência a inscrever-nos na viagem.
Eis, de seguida, o nosso relato da viagem efetuada, de 13 a 27 de Julho de 2013.

A nossa crónica, dia a dia

Assim, no dia 13 de Julho, pelas 14h00, lá estávamos no aeroporto Francisco Sá Carneiro para um encontro com o escritor, a fim de receber os bilhetes de avião. Afinal o guia-escritor não estava lá à nossa espera. Depois de muito procurar lá detetamos uma representante da Agência que nos deu a documentação necessária e nos informou que o Gonçalo Cadilhe tinha viajado, antecipadamente e que estaria à nossa espera em Windhoek. Uma pequena falha no programa.
Lá partimos para Frankfurt e começamos a verificar que não estávamos sós. Havia mais gente do grupo, que tinha partido do Porto, e que queria companhia.
Ao início da noite descolamos de Frankfurt para Joanesburgo num magnífico avião da Lufthansa – um Boeing 747-8. Aterramos ao início da manhã, do dia 14 de Julho, mas tivemos de esperar pelas 13h30m para embarcarmos de novo para Windhoek, num avião velho e só com dois assistentes de bordo para toda a classe económica. Pela forma de vestir mais pareciam dois “vagabundos” encontrados, à última hora, numa avenida da cidade e metidos à força no avião. O serviço de bordo, Joanesburgo-Windhoek, foi sofrível, pois estávamos a aterrar em Windhoek e ainda havia passageiros por servir. Alguns ficaram mesmo sem bebidas.
O que nos valeu para “matar” o tempo de espera no aeroporto sul-africano, foi que este tem lojas muito boas, com recheio interessante e artigos “em conta”, caso as marcas sejam autóctones. Algumas lojas têm até tudo o que é necessário para fazer um safari e a preços convidativos.
Chegados a Windhoek, por volta das 15h30m e lá estava o Gonçalo Cadilhe à nossa espera. Identificou-nos pela marca das nossas malas que tinham uma etiqueta da concorrência; eis o “vudu” (...) e que nos acompanhou durante parte da viagem.

Por culpa do mesmo “vudu”, as malas de alguns dos nossos companheiros de viagem, amedrontaram-se com a “poeira” que tinham de “comer” durante a permanência na Namíbia e decidiram ficar uns dias em Joanesburgo para celebrar o aniversário de Mandela. Assim, esses nossos colegas lá tiveram de andar a pedir roupa emprestada, principalmente ao condutor da viatura, para poderem enfrentar o frio, de forma mais adequada. Ao fim do terceiro dia, as malas foram recambiadas, sob escolta, para o hotel em Swakopmund.
No dia 14 de Julho, após o Check-in no hotel  Kalahari Sands Hotel – um bom hotel, diga-se de passagem - fomos jantar a um restaurante de Windhoek, de nome Joe´s. O recinto era muito típico, cheio de utensílios de diversa ordem e, para matar o frio, havia uma fogueira no centro, pois as mesas dos comensais eram, em parte, ao ar livre. A escolha do prato era livre e, digamos que o jantar, foi ótimo. Deu para alguns companheiros provarem diversas carnes de animais africanos e a opinião generalizada do grupo foi que o restaurante era de “cinco estrelas”.
[Foto 1] - Vista parcial do restaurante Joe´s, em Windhoek
No dia seguinte – 15 de Julho – o horário de partida foi fixado para as 8h30m, já com tudo carregado no camião.
Mas, eis quando não, o Gonçalo Cadilhe, viajante que já percorreu o mundo - e por diversas vezes - foi confrontado, de novo, com o vudu. Uma Agência Internacional de espionagem – supõe-se que a CIA - considerou que era perigoso não possuir uma fotocópia do seu passaporte – vá lá o diabo tecê-las - e assim contratou um empregado do hotel para “surripiar” o aludido documento. Só que o empregado ao abrir a mochila do viajante, para deitar mão ao passaporte, verificou que a carteira estava bem recheada e vai daí decidiu esconder a mochila, pois, talvez o viajante, com a pressa, pudesse optar por deixá-la e, assim, ele poderia viajar um ano pelo mundo, sem restrições financeiras.
Não conseguindo matar o vudu, o Gonçalo Cadilhe teve de deslocar-se à embaixada para pedir novo passaporte.
Após a receção da viatura “overland”, e uma espreitadela da cidade desde o monte sobranceiro à mesma, o Grupo decidiu que a melhor forma de o ajudar era ir “rezar” à Igreja de Christus Kirche. E assim o fez.
[Foto 2] - Vista de Windhoek
Mais tarde, pelas 10h30m, o Grupo foi informado, via telemóvel, que a sua ação tinha resultado. O empregado-vudu, confrontado com a câmara de vigilância, informou que não tinha escondido a mochila; apenas a tinha guardado em boa segurança por forma a evitar que alguém lhe metesse a mão. Passaporte, dinheiro e vouchers recuperados e eis o Grupo todo reunido para o início do trajeto até Sesriem.
[Foto 3] – Gonçalo Cadilhe comunica ao Grupo que conseguiu “matar” o vudu
A estrada que tomamos – a B1 - é a principal do país, com duas faixas de rodagem, mas tão estreita que, quando se cruzam dois camiões, quase se chocam.
Um pouco mais adiante do monumento aos heróis da independência e após uma paragem para a ida ao sanitário – homens à esquerda, mulheres à direita - e um controlo de pesagem da viatura – que se destina à liquidação de uma espécie de imposto de circulação – passamos por Rehoboth e, depois, viramos à direita em direção a Solitaire. Mais adiante, seguimos por uma estrada de terra batida – com velocidade máxima de 100 km/h!!! – em direção a Nauchas para subirmos à montanha de Rantberge, com um pico de mais de 2.000 metros de altitude.
Foi no alto da montanha, com uma vista esplendorosa, mas uma brisa fina de “cortar” que tivemos o nosso primeiro almoço volante, preparado e servido pelo guia-escritor e pelo condutor. A descida, após o almoço, foi demorada, pois o “pas” da montanha tem inclinações muito superiores às aconselháveis, de tal forma que a viatura teve de rolar com tração às 4 rodas.
Após a descida, foi rolar sempre a mais de 90 km/h e não fosse um rebanho de cabras, que se atravessou no caminho e a aparição do vudu pela manhã, a chegada à entrada do parque de Sesriem far-se-ia antes das 16 horas. Foi neste trajeto, após o almoço, que verificamos quão certeira era a prevenção do nosso guia-escritor “levem os vossos haveres num saco de plástico, dentro da mala e também a própria mala envolvida noutro saco de plástico”, porque nós, acrescentamos agora nós, não podemos envolver-vos num saco de plástico e envolver também o camião dentro de outro saco de plástico, pois só assim evitaríamos um pouco do pó que “alisa” a estrada, ou melhor, a picada.
Chegamos à área de estacionamento do Sossus Dune Lodge, por volta das 16h30, mas, como a poeira “comida” era pouca, tivemos de embarcar em novo Jipe, de caixa aberta, propriedade do lodge, para fazermos os últimos 100 metros.
Após a montanha de Rantberge a paisagem era bem diferente: andamos sempre, ou quase sempre, por um vale, mais ou menos alargado, com montanhas no horizonte a acompanhar-nos, umas vezes perto, outras vezes mais longe, algumas das quais pareciam artificiais, quais montes de pedras empilhadas pelas escavadoras aquando da construção da picada! Tudo por ação da temperatura e pela erosão provocada pelos ventos, pelo temperature weathering, segundo Ruy Duarte de Carvalho[1], conforme  a seguir transcrevemos: “… a bizarria da configuração dessas formas começa quando a rocha está ainda debaixo da terra. Infiltrações, durante épocas muito húmidas, fazem com que a água atravesse a crosta e atinja o granito. Ela, a água move-se, escorre através das fissuras verticais que são lavadas e alargadas. Secciona o granito em blocos quadrados. Entretanto, no decurso dos tais milhões de anos, as moles de granito passam a ver-se porque a terra à sua volta vai embora, erosões de superfície. Estão agora expostas a um clima quente e começa a dar-se a “temperature weathering”. As matérias mais escuras da pedra absorvem mais calor e expandem-se mais que as mais claras. A temperatura desce muito e rápido, durante a noite. A estrutura contrai-se e estala. O granito fende-se. Os blocos arredondam-se, formam às vezes perfeitas esferas. Esfoliações, entretanto, paralelas à superfície dos blocos, desfolham-se da rocha como peles de cebola. Outras vezes há blocos que parecem ter sido fendidos em duas partes. É a solução e a cristalização dos sais, são as acções biogenéticas, é a pressão de raízes ou a corrosão dos ácidos húmidos. É isso que dá configuração às paisagens de inselbergues e de amontoados caóticos que atravessamos por toda a parte desta Namíbia …”.
O entardecer, já dentro do parque, estava com uma luz fantástica. Pena foi que tivéssemos chegado já um pouco tarde. Não fora o “vudu” da manhã e com toda a certeza que teríamos tido a oportunidade de dar um mergulho na piscina e saborear, com todo o requinte, o entardecer numa paisagem africana de sonho! Para esquecer este percalço e comemorar a “matança” do “vudu”, o Guia-escritor ofereceu a todo o grupo uma bebida de aperitivo. Agora há que dizer: bem-haja o vudu e o guia-escritor!
[Foto 4] – Vista parcial do Sossus Dune Lodge
O lodge é uma construção em madeira, mas de luxo. Foi o primeiro lodge construído (1997) dentro do Namib-Naukluft Park, no estilo de “african village design”, segundo a agência Atiholidays.
O jantar foi servido no restaurante do lodge, mas, à boa maneira africana, a despensa não parecia estar bem recheada. Assim, os pedidos demoraram um pouco a ser satisfeitos e após a espera, os últimos comensais tiverem ainda de contentar-se com o que havia! Mas, no final, nada mau! Classificação: razoável.
O dia 16 de Julho começou cedo. Foi um dormir apressado, pois às 4h00 “batucaram” na porta. Depois foi lavar a cara, fazer as malas, pegar no saco de papel com o pequeno-almoço - não fossem os franceses levarem a melhor – subir para a viatura, tomar um aperitivo de pó e em seguida andar cerca de 60 kms até chegarmos às dunas de Sossusvlei, antes do nascer do sol. Estava um frio de rachar. Os termómetros marcariam cerca de 4º/5º centígrados.
A viagem, de cerca de 5 kms, entre o parque onde estacionou o nosso veículo e as dunas, feita, sem aviso prévio, em carrinha de caixa aberta, e a temperatura ambiente, de poucos graus positivos, fez estalar os lábios de quase todos os companheiros de viagem, os que não tinham gorro, cachecol ou agasalho adequado.
Uma vez em terra, foi subir, subir, na direção da duna mais alta, em fila indiana, sempre seguindo o cume, por forma a não escorregar pela ladeira. Mas, quando o cume ficou tão fino como o gume de uma faca de cozinha, com o vento a soprar cada vez mais forte, os heróis retraíram-se e, como o sol já despontava, deram meia volta e começaram a descer. O espetáculo das dunas cor de fogo, ao raiar da aurora é digno de nota e vale por si só a viagem! É preciso estar muito bem agasalhado, porque nesta altura do ano o frio é muito e a temperatura, tal como 2 dias depois da nossa caminhada, pode facilmente atingir valores abaixo de zero!
[Foto 5] – As dunas de Sossusvlei ao nascer do sol
Após a descida da duna e já com o sol a aquecer bem os nossos “lombos”, começamos a degustar o nosso pequeno-almoço, por forma a aliviar a carga, pois, mais adiante, esperava-nos uma nova caminhada até novas dunas, mais altas ainda – uma com cerca de 400 metros de altura – e o deadvlei, um antigo lago, hoje perfeitamente seco de toda e qualquer humidade, pois até as árvores existentes desafiam a lei de Lavoisier, isto é, apesar de secas, sem vida, não apodrecem e …assim não se transformam.
O deadvlei apresenta um cromatismo fantástico - branco, vermelho, negro (nas sombras) e azul do céu - que qualquer fotógrafo gostaria de aprisionar e trazer consigo para sempre. Esta caminhada foi um pouco mais dura e assim alguns companheiros resguardaram-se, recuperando forças para os dias seguintes.
[Foto 6] – O Deadvlei (pormenor)
Por volta das 10h00 o nosso condutor, Mr. Burger, vestiu a capa de professor das dunas e deu-nos uma lição teórico-prática sobre o ciclo da vida deste habitat: a planta que só deixa ver as suas flores quando a água é abundante; os arbustos que retêm a humidade de forma inteligente e são alimento dos animais que habitam o deserto; o “escaravelho” que sob a sua carapaça mantém um reservatório de água que, uma vez comido, vai matar a sede ao seu exterminador, etc., etc.
[Foto 7] – O condutor-professor no exercício das suas funções.
Após esta aula matinal, e já com o sol a escaldar (a temperatura em 4 horas deverá ter aumentado mais de 18º centígrados) foi o retorno, de novo em viatura de caixa aberta, ao parque de estacionamento (no trajeto ainda conseguimos vislumbrar uma coruja, escondida do sol) e o regresso ao lodge para levantar as malas.
Por volta das 13h00 estávamos de novo em viagem, com uma paragem, no canyon de Sesriem, de cerca de 20 minutos, só para ver o leito do rio seco. Depois foi levantar ferros, seguir até ao parque de campismo, que fica mesmo à entrada do parque de Namib-Naukluft Park, para o almoço, preparado, de novo, pelo nosso guia-escritor e pelo condutor.
Chegamos ao Namib Desert Lodge, nosso poiso para pernoita nesse dia, por volta das 16 horas. O lodge é uma construção moderna com uma boa infraestrutura e com um entorno paisagístico muito surpreendente, mas a estadia perfeita para este dia era no lodge anterior, em Sesriem, tal como estava previsto no programa inicial. Uma grande falha do programa.
O cansaço de todos os viajantes era de tal ordem que, ao convite do nosso Guia-escritor - que se transformou também em guitarrista – para uma sessão de cantigas para afugentar o “vudu”, só três elementos do Grupo marcaram presença. Todos os demais, primeiro cuidaram do corpo e só depois é que queriam cuidar da alma! Assim, o guitarrista teve de tocar, também, para os Oryx´s que depressa se juntaram no palco situado em frente da piscina!

[Foto 8] – Os Oryx´s, a escutar o Guitarrista
Durante este trajeto a nossa viatura sofreu uma avaria que provocou prejuízo direto em alguns dos nossos companheiros de viagem que tiveram dose reforçada de vento e pó: um dos vidros de uma janela abriu-se, espontaneamente, e começou a fazer greve, recusando-se a fechar.
À noite o jantar no lodge, em regime de self-service, quase total, foi bom. Como sobremesa adicional foi-nos proposta a troca do condutor Burger pela condutora Liane. O grupo aceitou a proposta, mas com uma condição: o condutor Burger tinha de consertar a janela da viatura, pois tinha sido ele a provocar a avaria com a velocidade estonteante com que tinha conduzido. Ele anuiu e assim, com a ajuda de dois pauzinhos bem afiados, lá conseguiu apertar a parte de cima da janela contra a parte inferior, pelo que esta, apesar de toda a trepidação, jamais abriu…até os pauzinhos serem tirados!
A noite foi retemperadora das forças e dado o cansaço de todos, o nosso Guia-escritor permitiu que a saída no dia seguinte fosse apenas às 9h00 da manhã. Foi dormir que nem justos!
A alvorada, para nós, foi bastante cedo, para sentimos a luminosidade africana antes do nascer do sol. Mas a partida da caravana no dia 17 de Julho foi quando já o sol ia alto!
A viagem foi de retorno pela C-19, até Solitaire, local já cruzado no dia anterior. Aqui houve paragem de cerca de 30 minutos para desentorpecer os pés e comer uma fatia de apple strudel e tomar dois cafés pelo preço de cerca de 50 dólares namibianos, qualquer coisa como 4,0 Euros. A tarte era apetitosa e a dose abundante.
Depois seguimos pela C-14, em direção a Walvis Bay. A cerca de 50 kms de Solitaire cruzámos e parámos no trópico de Capricórnio para a fotografia da praxe.
Mais adiante, novo percalço: o fecho da porta da viatura partiu-se e recusou-se a fechar. Assim teve de ser amarrada a porta, por dentro e por fora, para que a bagagem - e os passageiros! -não se perdessem até à próxima cidade. A estrada era mesmo má. Após os primeiros 100 kms de viagem, atravessamos zonas montanhosas, em que sobressaíram dois sectores distintos: um xistoso, num grande cotovelo de um rio – rio Kuiseb, que não alcança o mar - e outro, penso que de rochas mais variadas, mas com uma base de granitos muito lascados, e ambos completamente inóspitas. Depois a passagem modificou-se. Conforme Ruy Duarte de Carvalho afirma [3]: “… a aproximação da costa com destino a Walvis Bay, você vai acompanhando esses degraus discretos das planícies, sucessivas e planas … e depois oblíqua direta para o mar e …… vai ficando sem morro de pedra amontoada junta, cada vez mais sem paus nem capim, cada vez mais só espinheira solitária, terreno nu, de avestruz… ”. E mais à frente continua “…mas com as dunas o caso é muito mais sério …… a monumentalidade das dunas dos Tigres, riscadas, zebradas do lado do mar à hora do sol-pôr, cristas que brilham a mais de cem metros por cima das enseadas…”.
  [Foto 9] – A luz do amanhecer africano, ainda antes do sol nascer
  [Foto 10] – O Grupo, completo [Fotografia: “camara” de Gonçalo Cadilhe e Liane, como fotógrafa]
À entrada de Walvis Bay o vento era forte e arrastava areia com tanta força que até a estrada se via com dificuldade. Havia dunas por todo o lado, pelo que não sabíamos sequer onde se encontrava o mar. Mas antes que a viatura se enchesse de areia, lá foi ela chamada a nova pesagem para controlo do “imposto de circulação”.
Só muito perto de Walvis Bay passamos a ter direito a andar numa estrada asfaltada!
Por volta das 14h30m estávamos na lagoa de Walvis Bay, parados a comer, dentro da viatura, por causa do vendaval, o farnel que tinha sido ensacado no lodge, e a admirar os flamingos. Eram milhares … menos um, o que o chacal apanhou!
Qualquer fotógrafo gostaria de passar aqui dias e dias a tentar colher a imagem que o satisfizesse!
A etapa terminou, como previsto, em Swakopmund, por volta das 16 horas, no Swakopmund Hotel, a antiga estação de caminho-de-ferro da cidade, transformada num luxuoso hotel. Arrumadas as malas nos quartos, o nosso Guia-escritor levou-nos a uma pequena volta de reconhecimento pela cidade, com destaque para a zona da beira-mar.
[Foto 11] – Os flamingos em Walvis Bay
No dia 18 de Julho foi levantar cedo, pois às 7h45 era preciso arrancar, de novo, para Walvis Bay onde estava programado um passeio de barco pela baía.
O dia, contrariamente ao habitual nesta época do ano, amanheceu com um sol radioso.
Eram cerca de 9h30m quando embarcamos no catamaran no Walvis Bay Yacht Club para uma aula matinal do guia marítimo que, para além de explicar as regras de segurança, nos apresentou os seus animais-companheiros e forneceu uma explicação sucinta sobre a diferença entre focas e lobos-marinhos; estes têm umas pequenas “orelhas” e aquelas, não. A aula foi teórica e prática, pois deu direito a amaciar a pele, da  …   e da “lady-gaga”. Passados uns minutos, após os cumprimentos dos pelicanos e dos corvos marinhos, partimos à procura de baleias.
Mas eis que num assalto bem preparado e sob ameaça, a lady-gaga, assumindo o papel de vudu--namibiano, exigiu a um dos nossos companheiros de viagem um objeto que ele mantinha sobre os seus joelhos e atado ao pescoço. Ele bem tentou proteger-se, mas ela ameaçou-o e, para exemplificar o que lhe poderia acontecer, espetou os dentes num dos bancos de couro do catamaran. De seguida, mergulhou com um saldo acrobático e o nosso companheiro atemorizado pelo que lhe poderia acontecer, não teve outra solução a não ser enviar a sua máquina de filmar ao seu encontro, pelo único buraco possível do catamarã. Assim as imagens que tinha gravado até então, passaram a ficar gravadas, apenas, …na sua mente!
Passado o tempo do “vudu”, apareceu uma baleia ao longe, por duas ou três vezes, uma baleia cinzenta, perdida na baía há uns meses. De seguida, já em mar aberto, fomos à procura de golfinhos e eles lá apareceram a brincar junto às quilhas do catamaran. Mais tarde ainda se vislumbrou uma nova baleia, a uma distância superior à primeira.

[Foto 12] – O guia marítimo
Por volta das 12h30 foi hora de regressar ao porto, com passagem pela zona dos lobos-marinhos. Mas o melhor veio a seguir: um almoço volante, com ostras e champagne como aperitivo, para reabastecer de combustível toda a equipa.
Depois foi o regresso ao hotel e o resto da tarde livre para ir tomar um capuchino ao village café, um recanto que a mim me fez lembrar o Neal´s Yard, em Londres. Os preços eram razoáveis: dois “red” capuchinos e um “scone” custaram a módica quantia de 51,0 dólares namibianos, cerca de 4,1 Euros. E, como é agradável olhar para as paredes e ver toda aquela profusão de cores e de objetos e, ao mesmo tempo, ver escrito num dos quadros um pensamento do Nelson Mandela -  it always seems impossible until it is done   - e receber a fatura-recibo com um pensamento do Oscar Wilde que transcrevo: life is much too important to be taken seriously! Foi este pensamento que, dois dias depois, nos ajudou a esquecer um mal-entendido.
[Foto 13] – As cores do Village Café, em Swakopmund
À noite, o jantar foi servido no “TUG”, um restaurante afamado de Swakopmund, sobre a areia, onde se comeu bem e, apesar de ser serviço à lista, o tempo de espera não foi longo. O “kingklip”, um peixe que pode ser servido de diversas formas - grelhado, assado, etc. - estava delicioso!
A noite foi bem dormida e sossegada - e com segurança reforçada - pois tivemos uma companhia especial: alguém com “muito peso político” (parecia o Presidente da República da Namíbia, mas não era), pois tinha direito a guarda pessoal, ficou hospedado no mesmo hotel, segundo a informação de um dos nossos companheiros de viagem.
O dia seguinte, o dia 19 de Julho, amanheceu de novo – e estranhamente, segundo o nosso guia-escritor - com um sol radioso, se bem que com uma temperatura mais amena.
A janela da viatura apareceu, consertada, sem os pauzinhos. Mas foi sol de pouca dura. Logo aos primeiros solavancos, abriu de novo. Reclamação imediata e promessa de que, de tarde, se resolvia a situação.
Neste dia a partida da caravana foi mais consentânea com o nosso cansaço, e a horas mais decentes. A viagem era curta e assim, só às 9h00 é que arrancamos para a visita a uma paisagem lunar, cavada pelo rio “swakop” e, de seguida, à zona onde existe a “Welwitshia”, uma planta endémica do Namib Desert e que, afinal, são duas plantas: um macho e uma fêmea, bem mais conservadas estas, e que podem atingir uma vida de 1.500 a 2.000 anos.
[Foto 14] – A Welwitshia fêmea
Pelo meio-dia já estávamos de regresso ao hotel. O almoço foi livre. Pela nossa parte e seguindo uma recomendação do Gonçalo Cadilhe, fomos almoçar a um restaurante situado sobre a praia, o Lighthouse, que tinha as “pizzas” em saldo, com um desconto de 50%. Assim, uma pizza grega (66,0 dn com 50% de desconto), bem grande, por sinal, uma salada grega (70,0 dn), duas cervejas namibianas (2x15,0 dn) e dois expressos (2x15,0 dn), importaram na módica quantia de 161 dólares namibianos, já com IVA incluído, ou seja cerca de 13,0 Euros.
De tarde, após um levantamento num multibanco (só à oitava tentativa e dois bancos é que conseguimos fazer o levantamento pretendido de 1.500 dólares namibianos) ainda fomos visitar algumas lojas e supermercados da cidade, para comparar preços, comprar um adaptador elétrico para substituir o que deixamos no Namib Desert Lodge, comprar uma pequena lembrança para a nossa casa e meias da marca “falke” produzidas, quase de certeza em Ovar, mas que dificilmente se encontram à venda em Portugal, a preços mais que razoáveis.
Outros companheiros ou foram dar uma volta pelo deserto, de moto 4, ou tentaram voar sobre as dunas, mas, por falta de “peso” não conseguiram levantar voo.
À noite, o jantar foi servido no Wreck, um restaurante afamado, a norte da cidade, também sobre a areia. O serviço era à lista, a ementa era excelente, mas, ao contrário da noite anterior demorou muitíssimo e, alguns pratos, não condiziam com o que estava escrito no menu: por exemplo, o kingklip que era grelhado, saiu frito ou estufado. Mas, fora o tempo que demorou o serviço, a qualidade dos produtos e a apresentação dos pratos condizia com a fama do restaurante.
No dia 20 de Julho, o levantar foi muito cedo, pois a viagem era longa. Neste dia, após uma visita ao “cape Cross”, íamos deixar a costa ocidental da Namíbia e partir para o interior, já na direção da Damaraland e do Etosha.
Partimos por volta das 7h30, mas, para confirmar o tempo habitual nesta altura do ano, estava uma neblina, quase de cortar à faca, o tempo normal para esta época do ano. Afinal a sorte não dura sempre e os meteorologistas têm sempre razão!
A janela da viatura apareceu consertada de novo, mas agora a deixar de abrir de vez. Foi colada e assim, cortado mal pela raiz!
A direção tomada foi para norte, paralela à costa, para Hentiesbay, terra de pescadores à cana, com muitos metros de comprimento! Nesta pequena cidade, com muitas casas de veraneio também, fizemos uma paragem para abastecimento dos víveres para o almoço.
Grande parte do percurso foi feita em estrada de terra, ou mais apropriado de sal-gema. Mas, pelo menos, os solavancos eram bem menores.
Depois rumamos em direção à costa dos esqueletos e vimos, pelo menos um, bem perto da praia.
[Foto 15] – Confirmação do nome de Costa dos Esqueletos
Paramos no cabo “Cross”; antes, porém, sentimos a emoção do nosso Guia-escritor a declamar um trecho da Mensagem de Fernando Pessoa que, a seguir, e em parte, transcrevemos:

O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por fazer é só com Deus.
E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
Paramos cerca de 30 minutos para comprovarmos que o padrão original está na Alemanha, mais propriamente em Berlim, e admirar a colónia de focas marinhas existentes nesta área. São milhares, talvez mesmo mais de uma dezena de milhares! Os gemidos (as falas e conversas entre elas!) e o cheiro, para nós nauseabundo, tornam o lugar único e que vale bem a visita!

[Foto 16] – Milhares de focas em Cape Cross
Depois foi o retornar até à estrada de sal-gema, repleta de estaminés que vendem pedras aos turistas – não a nós, pois não tivemos autorização para parar – e tomar a direção da montanha mais alta do país, a Brandberg. A montanha é tão alta que parecia sempre que estamos quase a chegar, mas demoramos cerca de 3 horas até atingirmos o seu sopé.
Já Ruy Duarte de Carvalho dizia [4]  , ”……aí, de cem quilómetros você começa a ver o Brandberg, que é uma portentosa massa de granito vermelho com quase seiscentos quilómetros quadrados de área projetada e dois mil e mais de quinhentos metros de altitude…… é dessa cama de lances infindos de paisagem que vêm descendo durante duzentos quilómetros sem a gente quase dar conta, que emergem essas montanhas e esses inselbergues como o Brandberg……mas esse é um muito maior, uma coisa tão grande e alta que o clima lá em cima não é igual ao do resto à volta……."
O almoço foi preparado e servido na entrada do parque, pelos cozinheiros habituais.
A certa altura, por proposta do nosso guia-escritor, fomos brindados com uma exibição de um nativo que tocou, a alto nível, a guitarra do Gonçalo Cadilhe, durante todo o nosso repasto. O homem era mesmo guitarrista. Como a gente se engana. Quando ele aceitou o repto, pensávamos que iríamos ouvir apenas uns acordes e nada mais. Mas saiu um grande artista!

[Foto 17] – O nativo-guitarrista do Brandberg
Após as forças retemperadas pelo almoço, seguiu-se uma aula teórica dada por um guia do parque e que versou, em especial, sobre a linguagem dos nativos, nomeadamente sobre a leitura, diria eu, sonora, de três sinais da escrita – a língua de estalo, segundo Ruy Duarte de Carvalho na obra já citada - e que pode ser imaginada pela fotografia que a seguir se apresenta.
[Foto 18] – O guia da White Lady
Seguiu-se, para quem se sentiu com forças, uma caminhada de 50 minutos para ver as pinturas rupestres de White Lady e apreciar alguns animais que iam aparecendo pelo caminho. A caminhada foi agradável, sem grande dificuldade, a não ser na parte final em que era preciso “trepar” algumas rochas. Desagradável foi o tempo de espera, quando chegamos ao sítio das pinturas, para dar a vez a uns viajantes, salvo erro, franceses. Estivemos, por imposição dos guardas do sítio, cerca de 30 minutos parados, sem qualquer necessidade. E este tempo, bem falta nos fez na chegada ao hotel, como adiante veremos.

[Foto 19] – Animal das encostas do Brandberg
Quando retomamos a viatura eram quase 18 horas, pelo que, quando chegamos ao nosso paradeiro final para esta noite, ao White Lady Lodge, já estava tudo “escuro como breu”.
[Foto 20] – A pintura rupestre  denominada White Lady (pormenor)  [5]
Assim, a distribuição pelos quartos foi uma odisseia, pois, sem luz e com os quartos dispersos pela savana, sem qualquer ponto possível de orientação, só, por mero acaso é que o vudu não reapareceu. Aliás, tudo estava preparado para que ele entrasse em cena: uns quartos tinham janelas sem vidros, outros tinham as janelas com redes de mosquiteiro a servir de para-vento e outros tinham portas sem maçanetas. Um companheiro de viagem tinha o seu quarto tão distante do loby-bar que até se perdeu na savana. Foi “recuperado” por um “office-boy” que andava na distribuição das malas.
Mas a conclusão a tirar é que o vudu devia estar todo refastelado a visionar os filmes registados na máquina que a lady-gaga levou consigo para … as Maldivas … e não quis perder o seu tempo!
O jantar, que era para ser servido ao ar livre, devido ao vento forte que soprava, teve de ser improvisado, à última hora, para o bar do lodge. O espaço não tinha grandes condições e, mesmo a comida, digamos que … foi para esquecer.
Valeu, no fim, a cantilena dos nativos e a atuação dos nossos guitarristas privativos:  o Gonçalo Cadilhe – com uma crítica aos feitos do vudu - e a Liane, que teve direito a acompanhantes. Deram “show de bola” pelo que foram obrigados a assinar contrato para atuarem em conjunto, na próxima oportunidade, com o nome de Duo-Rinoceronte.
[Foto 21] – Liane, condutora-guitarrista, com os seus acompanhantes.
Este lodge não tem atualmente as condições mínimas para albergar um Grupo da Pinto Lopes Viagens. Apenas apresenta como positivo, o enquadramento paisagístico e os seus jardins exteriores.
No dia 21 de Julho a partida foi pelas 8h00, após um pequeno-almoço, considerado aceitável.
O primeiro objetivo do dia foi Twyfeltontein um parque considerado património mundial pela Unesco, devido, às suas pinturas rupestres. A estrada, em terra batida era aceitável, pelo menos, muito melhor que a percorrida até chegar a Walvis Bay. Quando o parque apareceu à nossa frente eram 10h00. A visita decorreu sob um sol escaldante, mas o passeio, para quem aguentou, foi agradável e as pinturas “pareciam bem antigas” e com motivos variados.
Depois fomos visitar os “organ pipes”, um local, não muito distante do anterior e onde as rochas de granito formavam paralelepípedos sobrepostos de dimensões variadas e que produzem um efeito cromático muito interessante. A mim, pessoalmente, fez-me recordar algumas pinturas da Vieira da Silva!
[Foto 22] – “Organ pipes” (pormenor)
Vislumbramos, também, ao longe, a Montanha Queimada, uma área interessante de rocha vulcânica, que com a ação do sol produz a impressão de chamas movendo-se sobre a montanha. Daí o nome. Mas, nós não presenciamos este efeito.
O almoço foi de pic-nic, mas só o café é que foi feito na hora. Os restantes alimentos tinham sido ensacados no lodge.
Eram 15h30m e, felizmente, estava à nossa espera um belíssimo lodge, o Damara Mopane Lodge, perto da cidade de Khorixas, que tem a particularidade de, para além de se situar no meio de um bosque de árvores-borboleta, ter como jardins ao redor de cada habitação, hortas de comestíveis diferentes.
Uma hora depois e grande parte do grupo já se tinha instalado e pronto a subir à plataforma que o hotel tem montada a meio da encosta para admirar o pôr-do-sol, enquanto escutava umas guitarradas do Gonçalo Cadilhe e bebia uma cerveja, que, afinal veio a custar, quase o dobro do normal, mais precisamente 26,0 dólares namibianos, isto é cerca de 2,10 Euros. Mas valeu a pena, pois o sítio é extraordinário: o lodge está situado num planalto, de grandes dimensões, no meio de uma savana e o colorido das árvores ganha mais realce quando o sol se afunda no horizonte.
[Foto 23] – O guia-escritor-guitarrista
O jantar, com pratos à base de carne, e uma “quiche” de brócolos e couve-flor como entrada, foi em regime de self-service e esteve bem.
Este lodge pode servir como alternativa ao White Lady Lodge, desde que o passeio até ao Cape Cross” seja feito num dos dias de permanência em Swakopmund e assim, aqui em Khorixas, o Grupo pode permanecer dois dias, o que seria muito mais agradável que “andar sempre de malas às costas”.
No dia 22 de Julho, a partida foi pelas 8h30m. O dia amanheceu radioso e merecia ter começado com um bom banho de piscina, não fosse a água estar demasiado fria.
Viajamos em direção a Outjo onde chegamos por volta das 10h45m. Paramos cerca de 45 minutos para abastecimento, uma breve visita pela rua principal, umas fotografias com as mulheres Imba e …tomar café. Depois foi sempre a andar até à porta Andersen do parque Etosha e, em seguida, ao campo de OKaukuejo, nosso ponto de dormida neste dia.
Aqui chegados foram distribuídos os quartos - que estavam em situação privilegiada, muito juntos do ponto de água - e o almoço, que veio ensacado do Damara Mopane, e depois de uma vistoria ao ponto de água, arrancamos de novo na viatura para uma visita pelo lado ocidental do parque, onde avistamos, dois leões, um deles a bocejar, e duas leoas a dormir, várias girafas e zebras e muitos outros animais de menor dimensão (impalas, kurus, springboks, avestruzes, etc..). Regressamos, como devido, antes do pôr-do-sol, e nova visita ao ponto de água para ver o que lá se passava.

[Foto 24] – Leão a bocejar
Após o jantar houve sessão colorida no ponto de água, tal a profusão de elefantes e outros animais que por lá passaram a dar espetáculo. Mais tarde – só alguns companheiros presenciaram – apareceram até três rinocerontes!
No dia 23 de Julho o arranque foi às 8h30m para um passeio pelo lado mais oriental do parque, até Halali, com passagem pelo Etosha Pan.
Mas, de facto, o levantar foi muito mais cedo, pelas 5h45m, para ver o espetáculo no ponto de água, ao nascer do sol. E valeu a pena, pois vimos alguns elefantes e, finalmente, para quem não tinha visto no dia anterior, um rinoceronte, para além de outros animais pequenos.
À saída do campsite a viatura virou à esquerda na direção do Etosha Pan, um lago seco com uma extensão de 110 por 60 quilómetros quadrados, à procura de animais.
Sobre o Etosha Pan escreveu Ruy Duarte de Carvalho[6]: “ – é uma superfície horizontal absoluta, é o horizonte de uma calote planetária, cósmica, onde não há vegetação que medre… É a cota mais baixa da imensa bacia do Ovampo, em que se inscrevem grandes porções de território hoje angolano e namibiano, de um lado e outro da fronteira, e em anos de excepcional pluviosidade transforma-se num extenso lago de quase 5000 kms2 onde vêm beber os animais que lhe povoam as margens. Mas o normal é dar-se a ver assim, placa salgada de uma argamassa igual a si mesma desde que há mais de 3 milhões de anos um processo de aquecimento modifica o regime de fluxos aquíferos que para ali convergem depois de imensas massas geladas, cuja formação remonta por sua vez a 300 milhões de anos, terem provocado a depressão da crosta terrestre de que hoje é testemunho a bacia do Ovampo.  Os desertos e as savanas típicas da Namíbia de hoje eram, então, lugares afectados por climas como os do Alasca de agora. Um extenso glaciar cobria a área do Etosha.….”.

[Foto 25] – Okaukuejo: Elefantes ao nascer do sol
E mais adiante continua: “… Há 35 mil anos, porém, ocorre uma perturbação que lhe vai alterar a configuração de superfície: agitações tectónias, sismos e vulcões e todo um inferno de acidentes geológicos, redefinem o curso do Kunene, abrem-lhe caminho até ao mar. E o escoamento das águas que ainda então, em certos períodos, escorrem, abundantes, para o Etosha, passa a processar-se por aí, a norte. Depois, a partir destes tempos, as chuvas vão ser cada vez mais reduzidas e a área do lago restringe-se. E se até hoje ainda vai enchendo às vezes, nas eras mais recentes está é sobretudo sujeito aos ventos constantes que o varrem e sopram e elevam as dunas que tem a noroeste. …. É onde o vento impera como principal agente criativo de paisagens. Das paisagens propícias?”.

[Foto 26] –Vista (parcial) sobre o Etosha Pan
E prosseguimos a nossa marcha, observando, ora aqui ora acolá, springboks, kudus, knus, avestruzes, zebras, etc. até chegarmos, por volta das 12h30, ao campsite de Halali, onde estacionamos para que os cozinheiros habituais pudessem preparar o almoço.
Enquanto esta preparação ocorria, quem quis deslocou-se até ao ponto de água – de nome Moringa -que se situava a cerca de 300 metros do parque, numa pequena elevação onde para além das árvores-fantasmas, pudemos observar a majestade de um elefante que, de longe, veio até ao pequeno lago para se saciar e depois com os seus passos firmes, após uma volta pelo mesmo, rumar, de novo, para o seu habitat, a savana. Enquanto sua majestade se satisfazia, todos os demais – spingboks, kudus, impalas e galinhas de água – se afastaram, pois a primazia, na selva, é sempre do mais forte.
[Foto 27] – Moringa: Elefante saciado no retorno à savana
Após o almoço, com direito a café - e inveja dos nossos irmãos espanhóis que, ao lado, se associaram ao nosso repasto – fizemos o regresso a Okaukuejo, pois era preciso sair do parque antes do entardecer, dado que o nosso ponto de pernoita, contrariamente ao previsto no programa inicial, era já fora do parque, o que será de evitar em novas viagens. Outro falhanço do programa.
Mas, na viagem de regresso ao campsite, o espetáculo foi mais grandioso: vimos, duas leoas a atravessar a estrada à nossa frente – e quando suas altezas passam, o silêncio é sepulcral – várias girafas, em manada e algumas só, um elefante, raposas do deserto, manadas de zebras, kudus, avestruzes, etc. Foi um fartar de vida selvagem! Só faltou ver leopardos e chitas!
[Foto 28] – Uma leoa a atravessar a estrada
Saímos do parque por volta das 15h30m em direção ao Etosha Safari Lodge que dista cerca de 20 kms da Andersen Gate.
Este pequeno hotel, bem simpático, fica situado num ponto estratégico, no topo de uma pequena colina, sobre um horizonte de savana. E o pôr-do-sol que assistimos na varanda do hotel foi, tal como o de há dois dias, em Khorixas, um verdadeiro festival de luz! Contudo os preços praticados aqui eram bem melhores que no anterior: por uma cerveja pagamos apenas 15,0 dólares namibianos quando no anterior tínhamos pago 26,0 dólares namibianos.
O jantar, servido em regime de self-service, foi bom. 

[Foto 29] – Zebras no horizonte
Aqui terminou a visita ao Etosha. Para nós esta visita, satisfez, completamente, a nossa curiosidade e superou até as nossas expectativas. Penso que teremos de voltar, mas acrescentando a este Parque, o delta do Okavango e as Victoria Falls, e traremos, com toda a certeza, material fotográfico mais adequado para fixar as imagens que os nossos olhos retiverem!
[Foto 30] – Girafas e zebras
[Foto 31] – Por do sol no Etosha Safari Lodge
No dia 24 de Julho, após uma noite bem dormida, o embarque foi pelas 8h00. Havia uma longa viagem para fazer, se bem que, quase sempre em estrada asfaltada.
Tomamos a direção da C-38 que se dirige a Otjiwaronjo, com passagem por Outjo. Naquela cidade, após cerca de 160 kms de viagem, paramos, cerca de 45 m, para abastecimento de água, tomar café e admirar … as mulheres da cidade, ou melhor as suas vestimentas de “domingo”. 
[Foto 32] – Liane, uma mulher de Otjiwaronjo

[Foto 33] – Um traje típico de Otjiwaronjo
De novo na estrada continuamos para sul, pela B-1, durante uns 10 kms e depois, em Okonjima, viramos à direita, por estrada de terra batida, em direção a Africat Foundation. Esta organização tem em desenvolvimento um parque com o objetivo de recuperar animais feridos com o intuito de os devolver, de novo, à vida selvagem.


[Foto 34] – Uma chita em recuperação
Uma vez aqui – as suas instalações são magníficas – foi-nos dada a oportunidade de ver algumas chitas que estão em regime de cativeiro, e que foram recuperadas após ferimentos sofridos na vida selvagem. Mas habituaram-se tanto “à boa vida” que já não querem – não podem, para sua segurança - ser devolvidas ao seu habitat natural.
Seguiu-se um almoço simples. Mas… o café para três … “demorou a chegar” mais tempo que os pratos a serem confecionados, pelo que, pela primeira vez, se verificou um ligeiro atraso na partida! Eram já 15h00 quando nos pusemos, de novo, em circulação.
Depois foi sempre a rolar em grande velocidade – 90 km à hora! – até Okahandja, a não ser quando cruzávamos com algum “javali”, pois … os mercados para venda da carne acidentada, só funcionavam de manhã!
Paramos em Okahandja alguns minutos, para abastecimento da viatura e indagar de qual o caminho que devíamos tomar para chegarmos ao nosso lodge dessa noite, o Elegant Farmstead. Foram mais de 25 kms em estrada de terra batida, muito acidentada, em obras. Chegamos mesmo ao cair da noite. Neste dia fizemos mais de 320kms! Foi a tirada mais longa, salvo erro.
Como comentário a esta etapa, temos a referir que merece a pena repensar o tempo de demora na Africat Foundation, pois ver chitas em cativeiro não é muito apelativo e para vir dormir a este sítio é preciso chegar ainda com sol, para saborear, o cair da noite numa paisagem africana, propícia a tal.
O jantar foi servido no lodge. Para nós foi de “cinco estrelas”, pelo menu e pela apresentação dos pratos; talvez o melhor jantar que tivemos.
Ao serão, após o repasto, ao redor da fogueira – estava bastante frio - e à luz do luar africano, exibiu-se o Duo-Rinoceronte.
Antes porém, houve uma sessão de cheiro e aspiração de rapé, por proposta da Liane, para limpar os narizes dos companheiros que ainda os tinham congestionados, por causa do frio apanhado na manhã de visita às dunas de Sossusvlei.
[Foto 35] – Um companheiro a cheirar rapé no Elegant Farmstead Lodge
[Foto 36] – O Duo Rinoceronte em ação
No dia 25 de Julho, fomos desafiados pelo nosso guia-escritor para uma caminhada matinal, a partir das 6h30 da manhã, para admirar o último nascer do sol em terras africanas e a Signal Mountain. Quase toda a gente aceitou o repto.
Tivemos como guia o Lawrence para uma caminhada que teve uma duração de 90 minutos, mas para quem tinha o objetivo de ver ainda alguns animais selvagens, foi quase um fiasco. Ainda se viram, umas pegadas de girafa e, ao longe, e a fugir, alguns Kudus, que, mal nos viram, deram logo “às asas de vila-diogo”. Alguns companheiros também subiram à torre de vigia perto do ponto de água, mas nada se avistou. Por razões óbvias – a carne do dia anterior era ótima! - os animais, por aqui, devem andar sempre muito assustadiços!
[Foto 37] – Lawrence, o guia da caminhada matinal
Ficou o exercício e os cheiros de uma manhã africana. Após um banho retemperador e um pequeno-almoço suculento, partimos de regresso a Windhoek, por volta das 9h00.
Após uma última pesagem, à entrada de Windhoek, para controlo do “imposto de circulação”, chegamos à capital por volta das 12h30. Houve almoço rápido, num restaurante da cidade e depois a entrada, de novo, no hotel-casino, o mesmo onde ficamos no primeiro dia.
De tarde, por sugestão do nosso guia-escritor, visitámos um centro de artesanato para compra de pequenas lembranças do país, e onde, à porta, pudemos admirar um “pintor de domingo” a mostrar a sua arte e os seus trabalhos.
[Foto 38] – Um “pintor de domingo” em Windhoek
À noite fomos jantar à Kubata, um restaurante de portugueses. O serviço foi à lista. O menu era bom, com algumas especialidades portuguesas, mas o serviço foi excessivamente demorado. Precisamos de mais de 2 horas e 30 minutos para o repasto e alguns companheiros não ficaram completamente satisfeitos!
No dia 26 de Julho foi programada a saída para as 8h00, mas, por atraso da transportadora que fazia o transfer, só saímos do hotel por volta das 8h45m. Apesar do voo estar marcado para as 11h35m eles justificaram o atraso afirmando que o mesmo nunca partiria antes das 13h00. São horários africanos! Mas a verdade é que foi assim que aconteceu!
Embarcamos em Windhoek por volta das 13h20m, em direção a Joanesburgo onde chegamos por volta das 17h30m (existe uma diferença de 1 hora). Depois seguiu-se uma longa espera, mitigada com uma visita às lojas do aeroporto, e o embarque, por volta das 22h00 em direção a Frankfurt, de novo num Boeing 747-8, onde chegamos às 6h00 da manhã. Por volta das 9h00 tomamos o voo em direção ao Porto e, alguns companheiros, a Lisboa. Desembarcamos no Porto, no aeroporto Francisco Sá Carneiro por volta das 11h00. Foram cerca de 27 horas em trânsito!
Nesta nossa viagem pela Namíbia não encontramos muita gente, confirmando assim o que já dizia Ruy Duarte de Carvalho  : “… a gente anda por aqui e vê que estes desertos são país de pouca gente, de escassa população, medida em densidade geográfica, mas de muita raça misturada … todos os avós desses povos que por aí há – tanto faz é negro, é amarelo, é pardo, vermelho ou branco ou mestiço de toda a ordem….”,
mas, para além do Etosha, que, segundo o mesmo autor - e como escrevemos atrás - é um princípio do mundo, vimos, para além das dunas de Sossuvlei (incluindo o Deadvlei), paisagens únicas, mas muito diferenciadas, por todo o território percorrido – e percorremos mais de 2.680 kms, dos quais cerca de 2.000 em terra batida - e ainda bandos de aves (flamingos) e de maníferos (focas e lobos marinhos, sem esquecer todos os animais do Etosha) como nunca tínhamos visto.
Valeu a pena a viagem!
E, no final, tudo correu bem ou…quase bem. Viemos todos mais enriquecidos e… tudo o que levamos, regressou a salvo, … à exceção de uma pequena máquina de filmar, que ficou para sempre na baía de Walvis Bay!

Até à próxima!

Ovar, 19 de Agosto de 2013
Maria Isabel Sousa
Manuel A. Nogueira de Sousa
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[1] Ruy Duarte de Carvalho – As Paisagens Propícias – Edições Cotovia – Lisboa – 2005;

[2] Já visitamos os Lençóis Maranhenses e as suas dunas. As de Sossusvlei são mais cromáticas, e, por isso, mais apelativas aos nossos olhos; mas, as dos Lençóis são mais agradáveis ao tato, pois, pela sua brancura, convidam-nos a andar descalço. Também o tempo que faz no Nordeste é muito mais caloroso. Na Namíbia, vimos pouca gente a “escorregar” por cima das dunas; no Nordeste, toda a gente caminha descalço e escorrega, com redobrado prazer;

 [3] Ruy Duarte de Carvalho, A Terceira Metade – Edições Cotovia – Lisboa – 2009;

[4] Ruy Duarte de Carvalho – A Terceira Metade – Edições Cotovia – Lisboa – 2009;

[5]  Ruy Duarte de Carvalho – As Paisagens propícias – Obra citada: “… que é conhecida por White Lady e que tem, desde que foi assinalada em 1918, suscitado as mais fantasiosas e, sem dúvida  delirantes, mas nem por isso menos estimulantes hipóteses, capazes de envolver viagens de fenícios, de semitas e de indonésios pelo Atlântico-sul, e migrações saídas de alguma onírica ásia central …..”.

[6] Ruy Duarte de Carvalho – As Paisagens Propícias – Edições Cotovia – Lisboa – 2005.
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