terça-feira, julho 02, 2013

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O Teatro Negro de Praga, República Checa

Se vai a Praga à procura de programas fora do comum e do que caracteriza mais profundamente a cidade, então não pode deixar de assistir a um espectáculo de Teatro Negro. Seja na companhia do seu criador, Jiří Srnec, ou noutra qualquer, um drama ou a nova versão de um conto infantil, acredite: vai ser diferente de tudo o que já viu até hoje.

No Teatro Negro de Praga, os actores contracenam com objectos luminosos e irrequietos, corpos fluorescentes e outras personagens voadoras. Como é que isso é possível? Muito simples. Ao lado dos artistas, num cenário completamente negro, estão pessoas também elas vestidas de preto que manuseiam, agitam, arremessam esses objectos sem nunca se deixarem ser vistas.

“Impossível” é uma palavra que não entra no dicionário do Teatro Negro. As possibilidades são infinitas entre tantas expressões passíveis de conjugar: efeitos visuais, de luz (negra) e de som, projecções animadas e panorâmicas, canto, música, ballet, dança contemporânea, pantomima, teatro de marionetas… e por aí fora. Graças às técnicas de suspensão também muito utilizadas, até os actores podem a qualquer momento voar. São peças que praticamente se confundem com espectáculos de magia, em que a fantasia transcende a realidade.

É mudo porque os checos amavam a sua língua.

A natureza fantasiosa do Teatro Negro, assim como o facto de as representações serem mudas, é melhor compreendida se levarmos em conta o contexto político do seu aparecimento. Embora os primórdios do Teatro Negro remontem à era imperial chinesa, foi em Praga, sob a dominação do governo soviético, que ele realmente floresceu. Nessa altura, recordemos, os checos careciam de liberdade de expressão e eram forçados a escrever toda e qualquer peça de teatro em russo, que havia sido imposto como língua oficial.

O Teatro Negro funcionou, pois, como uma forma de luta e protesto. Se o palco às escuras era símbolo do ambiente em que se vivia, de tristeza e total repressão, o contraste que se criava com as projecções de cores vivas representava a esperança e a vontade de mudança. Já a ausência de falas demonstrava que os checos não iam assistir impávidos à substituição da sua língua. Não estavam autorizados a usar o checo, mas usar o russo também estava fora de questão…

A interpretação não-verbal dos actores é a grande vantagem do Teatro Negro, não fosse ele ser entendido por crianças e adultos, vindos de qualquer parte do mundo e falando qualquer língua. Mas atenção: há que saber exactamente do que trata a peça antes de a presentear a uma criança. Por exemplo a mais conhecida e assistida de todas, Aspects of Alice, mostra o percurso de Alice depois da sua estadia no País das Maravilhas e inclui uma cena em que esta deambula pelo palco tal como veio ao mundo.

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