sexta-feira, junho 14, 2013

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Kiev-Pechersk Lavra (Mosteiro das Grutas), Ucrânia


Apesar de as suas origens serem muito mais remotas, foi em 1688 que Kiev-Pechersk conquistou o título de “Lavra”, a mais nobre distinção que um mosteiro masculino ortodoxo pode alguma vez receber. Se tal se ficou a dever ao facto de ser um dos principais centros de religião e cultura do leste europeu ou à exímia arquitectura dos seus mais de 140 edifícios, ninguém arrisca dizer com plena certeza. Mas o verdadeiro encanto deste mosteiro é-nos revelado pela primeira parte do seu nome: “pechera” significa “caverna” e remete para a infinidade de túneis, salões e igrejas subterrâneas que, com monges mumificados em cada esquina, atraem mais crentes, peregrinos e turistas do que a porção do mosteiro que está realmente à vista de todos.

O mosteiro de Kiev-Pechersk Lavra foi fundado no século XI, mais precisamente em 1051, por um monge grego chamado Antoniy. Com o auxílio do seu seguidor Feodosiy, Antoniy ocupou uma gruta natural que existia na encosta do rio Dnieper e, a partir dela, escavou toda uma série de outras cavernas que viriam servir de casa a estes e outros monges reclusos. Permaneceram lá até morrerem, altura em que duas circunstâncias concorreram para que os seus corpos fossem conservados como se de um real processo de embalsamento se tratasse: por um lado, a frescura das grutas e, por outro, o ambiente seco. O estado impecável em que as múmias se encontram, mesmo quase dez séculos depois, é, para os cristãos ortodoxos, a prova de que aqueles homens possuíam qualidades divinas e um carácter extremamente especial.

Muito provavelmente é esse o motivo pelo qual os peregrinos que ali se deslocam acreditam que, ao beijarem as múmias dos monges e os caixões, verão a grande parte das suas fraquezas físicas e psicológicas curadas. Para além dos santos Antoniy e Feodosiy, outras 121 pessoas jazem nestas galerias subterrâneas, tais como os reverendos Alipiy e Grigoriy, que se dedicaram grandemente à decoração do mosteiro e, mais concretamente, à pintura de frescos e mosaicos, e o historiador Néstor, que se crê ter escrito a obra Tale of Bygone Years em Kiev-Pechersk. Entre tocar e beijar as mãos e os pés das múmias, agitar velas acesas de um modo em condições normais considerado perigoso e participar em diversos outros rituais, o êxtase dos devotos é sempre total.

O complexo de Kiev-Pechersk Lavra estende-se ao longo de 28 hectares e encontra-se dividido em duas áreas. A parte alta do mosteiro constitui o maior conjunto de museus de toda a Ucrânia, entre os quais se contam o Museu de Microminiaturas, com obras de arte que, embora só sejam visíveis através de um microscópio, são dotadas de uma precisão chocante (tal como a balalaica de cordas com 1/40 do tamanho de um cabelo), e o Museu dos Tesouros Históricos Ucranianos, que inclui um conjunto de magníficas peças em ouro com cerca de 2500 anos, uma oferenda de colonizadores gregos ao povo cita. Já a parte baixa é composta por inúmeros edifícios religiosos, cujas cúpulas douradas são um regalo para os olhos.
A entrada para o mosteiro faz-se pela Igreja da Trindade, um projecto do príncipe da região de Cherníguiv, Sviatoslav Davidóvich, que em 1108 decidiu abandonar a sua vida despreocupada e luxosa para assumir o cargo de porteiro do mosteiro, o mais insignificante de todos. Sucessiva vítima de ataques de hordas e de incêndios, o mosteiro de Kiev-Pechersk viu as suas estruturas remodeladas durante os séculos XVII e XVIII, no estilo barroco, daí que as raízes arquitectónicas da Igreja da Trindade contrastem com a sua decoração efusiva, o que se observa igualmente em demais edifícios do complexo.

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