domingo, junho 09, 2013

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Colina das Cruzes (Kryziu Kalnas), Lituânia

Tente imaginar milhares de cruzes de diferentes tamanhos e feitios. Agora, imagine essas cruzes cobertas de outras tantas, mais pequenas, de terços, rodeadas por estátuas e pinturas de santos a perder de conta. É assim a colina de Jurgaiciai, mais conhecida por Colina das Cruzes, cerca de dez quilómetros a norte de Siauliai, Lituânia. Um amontoado desorganizado de objectos de cariz religioso, mas com profundo significado político, que se transformou num dos principais locais de peregrinação cristã do Centro da Europa e atrai crentes dos quatro cantos do país.

As origens da Colina das Cruzes estão envoltas em incerteza. Uns crêem que as cruzes chegaram àquela zona ao mesmo tempo que o Cristianismo, nomeadamente no final do século XIV e início do século XV, uma época em que os lituanos ainda não estavam convictos da existência do livre arbítrio e preferiam acreditar no poder da natureza e do divino. Uma teoria que é corroborada pelo facto de, até aí, aquela colina estar ocupada por uma fortificação que se destinava a prevenir os ataques dos Cavaleiros da Ordem Livoniana.

Outros, no entanto, argumentam que as cruzes surgiram apenas no século XIX. Pelo menos, foi nessa altura que elas deixaram de ter um valor meramente religioso para assumir um político, de reivindicação e desassossego popular. A seguir à revolta de 1830-31 contra o domínio czarista, altamente reprimida, os lituanos começaram a plantar cruzes naquela colina como símbolo da sua luta, do inconformismo com as deportações ordenadas pelo czar e com a situação de famílias que nem sequer conseguiam encontrar os túmulos dos seus entes queridos.

Voltavam a aparecer como que por magia

Já no século XX aconteceu algo espectacular. Em 1961, o governo soviético proibiu a colocação de mais cruzes naquela colina e decidiu deitar abaixo as que já lá estavam (mais de 5 mil) com recurso a bulldozers. Contudo, não interessava quantas vezes os bulldozers corriam a colina… as cruzes reapareciam sempre na manhã seguinte. Sinal da coragem de um povo que, determinado a não abdicar das suas tradições, ascendia ao local durante a noite para repor milhares de cruzes. A recuperação da independência lituana e o sentido de agradecimento que esta acarretou vieram trazer um novo fôlego ao costume, que foi reforçado ao ponto de ser necessário libertar as áreas circundantes para acolherem novas cruzes.

Hoje em dia, a colina é casa de aproximadamente 50 mil cruzes com as mais diversas histórias. Umas extremamente simples, outras verdadeiras obras de arte. Umas são pedidos a Deus, outras são oferendas de devotos que viram as suas preces correspondidas. E há ainda aquelas que vêm directamente do resto da Europa ou de outros continentes, como a América ou até a Oceânia, e que às vezes chegam pela mão de turistas curiosos que nem sequer pertencem à religião cristã. São todas bem-vindas.

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