domingo, junho 09, 2013

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Cidade Velha, Ilha de Santiago, Cabo Verde: de Centro do Mundo a Memória Colonial

 
Para a Cidade Velha, é mais conveniente ser recordada como Ribeira Grande, a próspera capital cabo-verdiana, ponto de paragem de grandes navegadores, terceiro vértice do comércio atlântico triangular, para a qual o tráfico de escravos trazia uma riqueza inimaginável. Ela é a prova viva de como uma cidade pode passar da glória à decadência e cair no esquecimento geral em poucos séculos. Mas a Cidade Velha está a recuperar terreno e tornou-se em anos recentes num destino turístico de eleição, especialmente depois de ter ganho o estatuto de Património da Humanidade e um lugar na lista das sete maravilhas de origem portuguesa no mundo.

A Cidade Velha foi a primeira a ser fundada por europeus (neste caso, portugueses) em África, no ano de 1462. Nessa altura, adoptou o nome de Ribeira Grande por estar localizada num vale em que correm duas ribeiras que, em determinado ponto, se cruzam e dão origem a um único e imenso curso de água. E, entre os séculos XV e XVIII, exerceu um papel absolutamente fulcral na expansão europeia, auxiliando a penetração em África e o controlo do comércio atlântico. A sua posição estratégica fazia da Ribeira Grande uma ponte que ligava Europa, África, Américas e Oriente, pela qual se transaccionavam produtos (entre eles plantas que só ali eram produzidas), escravos, cultura e informação.
Também foi graças à Ribeira Grande que a navegação de longo curso se pôde tornar uma prática comum. Este era o local onde navegadores portugueses e espanhóis aportavam para abastecer os seus barcos de víveres, frescos e água e poder prosseguir viagem em melhores condições. Aqui atracou Vasco da Gama na descoberta do caminho marítimo para a Índia, em 1497, e, um ano mais tarde, Cristóvão Colombo, enquanto empreendia a sua terceira expedição às Américas.

Os cabo-verdianos gostam igualmente de dizer que na Ribeira Grande nasceu a música tão típica do seu país e, mais do que isso, a sua própria nacionalidade. Com efeito, o facto de a cidade ser um dos maiores centros esclavagistas da época dos Descobrimentos proporcionou o cruzamento de europeus e africanos e, consequentemente, o surgimento de uma sociedade mestiça. Esta não é, no entanto, uma mestiçagem puramente física. É uma mestiçagem cultural também, visível por exemplo no desenvolvimento do dialecto crioulo, com influências portuguesas e africanas.

Apesar de todo este florescimento, a Ribeira Grande tinha um ponto fraco: era um alvo bastante fácil para corsários ingleses e franceses. A cidade teve o primeiro susto no ano de 1585, quando Sir Francis Drake a invadiu e desproviu de tudo o que a tornava rica. Na sequência do incidente, o rei D. Filipe II de Espanha (I de Portugal) mandou erigir uma fortaleza, que, contudo, não foi suficiente para impedir o arraso completo da cidade pelo corsário do francês Jacques Cassard, em 1712. Com este saque veio o declínio definitivo da capital, que acabaria por ser transferida para Praia, a 12 quilómetros de distância.
Além da Fortaleza Real de São Filipe, que, do alto dos seus 120 metros, oferece uma fantástica panorâmica da Cidade Velha, existem outros pontos de interesse turístico que valem a pena, tais como: as ruínas da primeira Sé Catedral de todo o continente africano, que Siza Vieira converteu num projecto de reabilitação; a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a mais antiga igreja colonial do mundo, no estilo manuelino, onde o Padre António Vieira pregou em 1562; e, finalmente, o primeiro pelourinho da ilha, junto do qual os escravos eram brutalmente castigados.

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