domingo, agosto 26, 2012

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O povo das mulheres-girafa

#1#  - Postal enviado pelo viajante Tiago Almeida em 26/08/2012
"As fotografias que seleccionei foram tiradas durante umas férias na Tailândia, no programa fizemos questão de incluir uma visita a uma aldeia da tribo Karen.
Ficámos em Mae Hong Son, uma pequena cidade do norte, conhecida pela sua proximidade ao triângulo dourado, famoso pela sua importância na história do comércio ou tráfico do ópio. Há nesta região várias aldeias desta etnia, refugiando-se aqui da brutalidade do regime militar do país vizinho (Myanmar, ex-Birmânia). Esta tribo ramifica-se em algumas sub tribos, das quais a mais famosa é o “povo das mulheres-girafa”, tão conhecida pelas enormes espirais de cobre que adornam e modelam os pescoços das mulheres.


Tradicionalmente este povo subsiste da agricultura e pecuária, vivendo muitas vezes em regiões remotas e um pouco desligado do resto do país.
Uno, o guia local, apanhou-nos no hotel cerca das oito da manhã para visitar o mercado local. Durante uma hora circulamos por entre bancas com produtos alimentares variados, observando as gentes, um pouco menos exóticas que os produtos negociados. Disse-nos que seria bom levarmos alguns doces para distribuir na aldeia como gesto de boa vontade, concordamos de imediato e passamos a escolher rebuçados, bolachas e caramelos de todas as cores e sabores até encher uma saca de plástico.

Voltamos ao jipe e iniciamos a viagem para a aldeia. Pelas estradas de terra que recortavam a montanha, as constantes curvas agravavam a minha má disposição já de si sinuosa. Nem a frescura própria de Dezembro nem a beleza da paisagem, desfaziam as minhas reservas quanto ao que iria encontrar na aldeia. Provavelmente um circo para turista ver, um espectáculo com actores contrafeitos, cenários de plástico e sorrisos falsos.
Chegamos ao destino e quando descemos do jipe fomos avisados para não nos aproximarmos de um caminho onde estavam três militares armados de metralhadoras junto a um portão de bambu. Era o caminho que levava à fronteira com o Myanmar.
Por ali circulavam algumas raparigas da tribo em pequenas motas com o selo do governo tailandês. Questionamos Uno, que nos disse haver algum apoio do Rei a estas aldeias. A circulação era permitida apenas a alguns para compra de alimentos e produtos essenciais nas povoações vizinhas, não eram fornecidos quaisquer documentos aos habitantes Karen pelo que lhes era vedada a passagem nos constantes postos de controlo das estradas circundantes. Um preço alto para este acolhimento que ainda assim a tribo parecia disposta a pagar.
A aldeia era constituída por casas de bambu de ambos os lados de um caminho de terra. Para além das casas havia abrigos onde as famílias vendiam peças de artesanato aos turistas. As roupas e os adornos fortemente coloridos e as feições simétricas e delicadas das mulheres contrastavam com a simplicidade e rudeza das construções, do caminho de terra e lama e dos poucos homens que aqui e ali baloiçavam lentamente as redes de descanso na sombra. A manhã já ia avançada, a luz dura caía quase verticalmente sobre as construções de bambu onde se abrigavam os habitantes.

Um pouco mais à frente, Uno deslocava-se pronunciando alto uma palavra que atraía as crianças um pouco tímidas. “ Atamu...Atamu...” dizia, enquanto após alguma renitência os primeiros caramelos eram agarrados seguidos de uma correria em direcção às respectivas mães. Pouco a pouco as crianças venciam a timidez e umas dezenas de metros à frente fui sequestrado por um grupo brincalhão que me fechou numa casa um pouco maior que o normal prometendo a minha libertação a troco de mais alguns rebuçados. Enquanto lhes tentava explicar que já não tinha mais “atamu” reparei no mapa e alguns desenhos da sala e percebi que estava na escola da aldeia, fui salvo um pouco mais tarde graças à intervenção determinada da jovem professora que pôs o grupo em fuga. Uno continuava a distribuir doces, conversando amavelmente com as pessoas. Eu aproveitava a diversão para disparar a câmara sem ser muito notado."

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