sábado, agosto 04, 2012

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A Tribo Masai - Os últimos Guerreiros Nómadas

Imagem: Shutterstock

Sentem um enorme orgulho em afirmar serem descendentes do Deus Enkai, assim como os seus filhos predilectos, de quem dizem dever-se a origem do mundo. Um Deus que acreditam viver na montanha e dominar a vida que acontece no Rift Valley, nas planícies que se estendem desde o Quénia até à Tanzânia, em Serengeti e em N-Gorongoro nos lagos Nakuru, Maniara e Naivasha, e no rio Mara, a fonte de vida da imensa Savana.
Dos tempos longínquos e dos seus mais idos antepassados, que se perdem para lá das Savanas e do Kilimanjaro, herdaram o sal, uma dádiva do seu Deus e as manadas de gado. Falamos dos Masai, um povo de aparência atlética e porte elegante, um dos poucos povos do mundo que continua a ser nómada. Embora o seu habitat se reduza às planícies onde emerge a autêntica imagem da savana Africana. Kilimanjaro, herdaram o sal, uma dádiva do seu Deus e as manadas de gado.
Uma imagem feita de campos dourados e elegantes acácias, pó, vida selvagem intensa e única, e esplendor. No meio desta paisagem, lá estão esses guerreiros envoltos nos seus coloridos panos, segurando um cajado com o olhar colocado no horizonte infinito, continuando a viver em pequenas aldeias erguidas de barro e estrume, a pagar o dote em vacas, a viver em poligamia, e a fundamentarem a sua vida em ancestrais práticas e rituais.
Quando se fala do Quénia ou da Tanzânia, obrigatoriamente vem à memória a impressionante sequência de cascos e cornos arrastando-se a passo cadenciado pelas intermináveis savanas onde a sorte e o instinto separa a vida da morte. Assim como a maior migração de seres vivos da Terra, dos incomparáveis pôr-do-sol e das exuberantes paisagens, ora feitas de terra vermelha, ora de florestas, ora de lagos que fervilham de vida. Também não podem faltar os insaciáveis vendedoras ambulantes de máscaras de guerreiros, quadros coloridos, elefantes e rinocerontes de ébano, de pulseiras de rabo de elefante e de contas… gente que povoa pontos de venda ao longo dos limites do vale do Rift, as beiras das entradas de terra batida à entrada ou à saída de pequenas aldeias, ou sob a sombra de uma acácia ou embondeiro.
Mas quando se fala sobre o seu povo, há desde logo um que se destaca no meio dessas conversas. Um povo que rapidamente se identifica com o Quénia, apesar de apenas representar 2% da sua população, os Masai. Os masai guerreiros que vivem da pastagem e para o seu gado, que se regem pelo nascer e o pôr-do-sol, e que raramente matam esses animais para comer.
Bem pelo contrário. Alimentam-nos e procuram aumentar o número, pois estes são uma forma de identificar o seu grau de riqueza, um símbolo de prosperidade. Mais vacas, mais cabras, mais ovelhas… mais respeito pelo clã. Simples! Mas isso não significa que recusa à caça, arte em que são exímios e corajosos.
Os masai que se caracterizam também pelo seu orgulho e por serem aguerridos, até porque acreditam serem o povo eleito do deus Enkai, que reside na parte superior do vulcão “ Ol Doinyo Lengai”, na língua dos masai, que significa a “Montanha de Deus”.
Um deus que teve três filhos e que, segundo a lenda, entregou a cada um deles um utensílio diferente. Ao primeiro, um arco e flecha para caçar, ao segundo uma enxada para arar, e ao terceiro um bastão para conduzir o rebanho. É este último o pai dos masai, o que após esta partilha e dádiva, lhe confere o direito de apropriarem-se de todos os animais existentes na face da terra.
E eles cumprem esse desígnio, vivendo aqui desde tempos imemoráveis. Desde que chegaram das terras distantes do sul do Sudão, sendo fácil vê-los vagueando no meio das terras áridas que contornam a Reserva Nacional de Masai Mara e se estendem até ao Parque Nacional de Serengeti. Os mesmos espaços por onde vagueiam rinocerontes, leões, elefantes, gazelas de Thompson e de Grant, gnus, girafas, hienas, chacais, zebras…, numa desenfreada sofreguidão de vida e de sobrevivência. Uma realidade que nos chega logo que entramos nas tortuosas estradas de terra vermelha que nos esperam ainda às portas de Nairobi e que nos levam através das paisagens feitas de florestas tropicais, de plantações de chá, de cana de açúcar e de café, que atravessam pequenas aldeias, como Narok, a capital comercial dos masai no Quénia, contrastando com a imensidão das savanas.
Pequenas vilas e aldeias onde tudo se vende. Desde pneus para bicicletas a coelhos; diversos utensílios de latão para todos os usos; fruta fresca e cheia de cheiros vendida em alguidares à beira da estrada; especiarias; quadros de cores vivam que contam o quotidiano das suas gentes; artesanatos; sapatos que já percorreram muitos quilómetros…
Uma imagem que se completa, aqui e ali, com ferrugentas estações de gasolina, anúncios da Safaricom, ( a maior companhia de telefones do Quénia), e jovens estudantes vestidos com um uniforme verde e calções curtos que saúdam, com um tímido sorriso, quem por ali passa, ao longo dessas estradas de terra vermelha.
Uma imagem e uma estrada que de repente desaparecem, dando lugar a caminhos empedrados e empoeirados, passando a oferecer uma visão única. A da grande savana, percorrida por milhões de gnus na sua longa e pausada caminhada, na companhia de milhares de zebras e de gazelas, e do olhar atento de leões e chitas. E é nos arredores de Narok, entre as aldeias dispersas, que os guerreiros masai reaparecem, rodeados pelo seu gado, percorrendo muitas vezes mais de 50 quilómetros por dia, também muitas vezes sem comer e beber, para alimentar os seus animais, e sempre acompanhados por uma vaca rudimentar de madeira e um punhal.
Distingui-los, mesmo ao longe, é fácil. Tudo por causa do vermelho vivo da sua vestimenta, não mais do que uma manta – swuka- agarrada ao pescoço e que cai ao longo dos seus corpos esguios, assustando mesmo os elefantes que se cruzam no seu caminho, embora sejam os leões aqueles que devem temer estes guerreiros nómadas, pois a sua virilidade e o seu valor como homens apenas acontece quando enfrentarem o “rei”. Então, aí, sim, tornam-se adultos. Um ritual de iniciação obrigatório, um período que pode durar quatro anos, durante os quais não devem pisar as terras da sua aldeia.
As mesmas aldeias onde, altos, eretos e orgulhosos, os masai, em grupos de sete ou dez, esperam no exterior por quem os visita, disposto a iniciar a dança de boas-vindas, ou muitas vezes aparecendo, nos seus trajos coloridos, vindos do meio do nada, enquanto as suas mulheres e crianças continuam discretamente escondidas no meio das palhotas feitas de estrume e barro, cobertas de capim, e abraçadas por uma parede em círculo que serve de proteção contra possíveis predadores.
Mas cá fora, e passados alguns minutos, todos os guerreiros, quase todos irmãos e primos, em linha, começam as suas tradicionais danças. Saltando de forma obstinada e brandindo as suas facas, realizando movimentos que fazem rodopiar os seus multicolores colares, braceletes e brincos que pendem das suas orelhas perfuradas. Não são um símbolo de coragem ou excentricidade, mas sim de vaidade, outra das características marcantes da sua raça, como o são as cicatrizes de queimaduras que decoram os seus braços, do começo ao fim, e propositadamente feitas.
Um símbolo com o seu quê de pretensiosismo, como o são os longos cabelos compridos, untados de lama e graxa, contrastando com as cabeças rapadas das mulheres, que os masai consideram uma atração adicional, uma espécie de “sex appeal”, mas também por considerarem cómodo.
Depois desta demonstração de virilidade e de vaidade por parte dos homens, chega a vez das mulheres se exibirem. Uma prova de que homens e mulheres não se misturam, nem para comer, em que o homem nunca beija a mulher, pois a boca, para os masai, serve apenas para comer, e nunca deve ser usada para outra finalidade. Em que nenhum guerreiro pode comer o que quer que seja desde que tenha sido tocado por uma mulher, nunca podendo estas perguntar aos homens onde vão.
Mulheres que são responsáveis pela procura de lenha, de cozinhar e de cuidar das crianças que, à distância ou meio escondidas, olham divertidas para os turistas, enquanto outras, sempre descalças, vão moriscando um mendrugo, impávidas perante o exército de moscas que as perseguem. Mulheres a quem compete construir as casa, que serão sempre delas e não dos maridos, pois estes podem usar tantas casas como mulheres que tenham, mas que nenhuma jamais será deles.
Quer dizer, podem casar-se quantas vezes quiserem, mas nunca com alguém do mesmo sangue. Isto sempre que tenham suficientes cabeças de gado que permitam alimentar as suas mulheres e pagar o dote em gado. Uma obrigação para qualquer casamento. Um caso de poligamia, masculina claro, que não é uma exclusividade para os masai, mas uma prática permitida pelo governo, e extensiva a toda a população queniana, seguindo a filosofia de que, quando maior for a família, mais fácil será algum parente ajudar o outro que possa ter algum problema.
Um povo que, para além de poligamia, continua a praticar a circuncisão feminina, apesar de ser ilegal. Mas para os masai, esta é uma situação sine qua non para passar de menina a mulher, já que a figura de rapariga não existe. Rituais muito próprios, passados de geração em geração, através de tempos imemoráveis, como o queimar das suas aldeias se acreditarem que estão amaldiçoadas. Assim acontece, por exemplo, se por acaso morrem dois jovens da tribo num curto espaço de tempo, sem razão aparente. Então, destroem tudo num sinal de purificação, despedem-se com um ritual, untando os corpos dos mortos de sangue e de banha de porco, cobrem-no com uma pele de animal, abandonam os corpos na savana, e partem em direção de um outro lugar, ondem erguem uma nova aldeia.
Aldeias, ou “bama” que se abrem a quem os visita, mas apenas depois de uma receção no exterior, de uma exibição em que mostram a sua virilidade através da dança e da autorização do chefe da aldeia. Só então nos é mostrada a aldeia e somos convidados a entrar numa “enkaji”, as suas pequenas cabanas feitas de esterco e de barro, cobertas com pele de vaca e capim, sem janelas, apenas um ou outro pequeno buraco, criando uma permanente escuridão, impedindo assim a entrada das moscas.
Uma “enkaji” dividida em quatro pequenos cubículos, um para a mãe e os filhos, independente do número de crianças, outro para o homem, ambos forrados com pele de carneiro, um terceiro para a vaca e o bezerro, e o quarto para a cabra e cabritos, e que só servem para dormir. É que toda a vida se faz no exterior, entre as cabanas, com as mulheres de um lado, sentadas no chão, rodeadas de crianças, enquanto os homens se reúnem num outro lado da aldeia, ou no exterior.
Os mesmo homens que convidam o visitante a beber sangue de vaca ainda quente, estendida numa vasilha de madeira, ou uma mistura de sangue com leite, armazenado em recipientes de barro revestidos a pele lavados com urina das vacas. Assim é este povo, o último dos guerreiros nómadas, um povo que continua a viver seguindo ancestrais rituais, um povo que, na despedida, invoca o seu Deus para gular os passos daqueles que foram durante algumas horas seus convidados.

Curiosidade: Porque é que os Masai saltam?

Chama-se "Dança dos Saltos", cada jovem deve saltar o mais alto que puder, enquanto os outros ficam num círculo a cantar. As vozes dos homens vão aumentando à medida que aumenta o salto. Na linguagem Masai, esta competição em forma de dança é chamada de "adumu" em que os guerreiros mostram através de um grande salto a sua virilidade.

Fonte: Across

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